Depois de ter lido Siddartha e Narciso e Goldmundo chega a vez da obra publicada em 1943 que terá valido em definitivo o Nobel a este autor em 1946 e que Thomas Mann descreveu como sendo um livro sublime.
Depois de uma introdução um pouco mais densa sobre em que consiste o jogo das contas de vidro – como que uma ordem de aprendizes que procuram aliar a música a outras disciplinas, como a matemática em exercícios de perícia e abstração mental, o livro acompanha a vida escolar de Joseph Knecht – José Servo -, um jovem órfão adoptado pela administração do ensino e de quem pouco se sabe, a quem é dada uma oportunidade concedida apenas a alguns eleitos: dada a destreza musical que exibe e que chama a atenção – sem que ele o perceba – do seu professor e depois de um Mestre de Música que o visita intencionalmente para averiguar se é merecedor de continuar os estudos numa escola de elite. Mas mais tarde, nos seus dezassete anos, sente-se seduzido por um colega que pertence à “ordem secular”, um jovem laico que apenas estuda naquele local por ser de famílias importantes e que contesta abertamente em prelecções espontâneas os mais “escolásticos”, os que irão permanecer fechados na sua ordem intelectual, que tem algo aliás de ordem espiritual – sendo a meditação uma das disciplinas – a prosseguir estudos, por vezes em exercícios intelectuais estéreis e que não interessam a ninguém. Joseph dedicar-se-á como outros eleitos à procura do saber e do conhecimento absoluto, chegando a tornar-se chefe supremo da comunidade, o Mestre do Jogo de Contas, Ludi Magister Josephus III, mas a certa altura acabará por perceber que é insustentável a contradição e tensão entre o mundo exterior, sempre imóvel, e o mundo fechado em que ele e os seus irmãos se escudam.

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Paulo Nóbrega Serra
Written by Paulo Nóbrega Serra
Obtive o grau de doutor em Literatura com a tese «O realismo mágico na obra de Lídia Jorge, João de Melo e Hélia Correia», em Junho de 2013. Mestre em Literatura Comparada e Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, autor da obra O Realismo Mágico na Literatura Portuguesa: O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge e O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo, fruto da minha tese de mestrado. Tenho ainda três pequenas biografias publicadas na colecção Chamo-me: Agostinho da Silva, Eugénio de Andrade e D. Dinis. Colaboro com o suplemento Cultura.Sul e com o Jornal Postal do Algarve, e tenho publicados alguns artigos na área dos estudos literários. Trabalhei como professor do ensino público cerca de 10 anos, ministrei formação. Fui Docente do Instituto Camões em Gaborone na Universidade do Botsuana e na SADC, sendo o responsável pelo Departamento de Português da Universidade e ministrei cursos livres de língua portuguesa a adultos. Realizei entretanto um Mestrado em Didáctica do Português e das Línguas Clássicas, frequento uma formação online de promoção da leitura e preparo-me para uma de revisão. Ler é a minha vida e espero continuar a espalhar as chamas desta paixão entre os leitores amigos que por aqui passam. Resido actualmente na cidade da Beira, Moçambique.