Deixem Passar o Homem Invisível, de Rui Cardoso Martins, ganhou o Grande prémio de romance da APE em 2010. Deixando um texto mais completo para mais tarde partilhar queria apenas referir que é uma obra bastante original e que apesar do mercado literário estar actualmente cheio de demasiadas opções apesar de nem todas poderem ser consideradas literatura, tanto da parte de jovens autores, como de autores novos e fugazes, bem como de jornalistas, vale bem a pena perdermo-nos nos labirintos subterrâneos de Lisboa em que um cego guia uma criança, e lhe dá a ver o mundo por outros olhos, os olhos da experiência e da sabedoria de vida. É particularmente enriquecedor a forma como o autor procura traçar um mapa de uma Lisboa oculta ao mesmo tempo que conduz uma narrativa em que reflecte o que significa viver e sobreviver na grande cidade, ainda mais num cenário semiapocalíptico como o que provoca o desaparecimento das duas personagens – perdidas nos esgotos e subterrâneos. O humor persiste ao longo da obra, principalmente quando se entra em trocadilhos e mal-entendidos a propósito das coisas ridículas que se podem dizer a um invisual. Há ainda um levantamento bastante completo em torno de certos lugares comuns relacionados com o ser cego, o que lembra um pouco os jogos linguísticos em que Saramago incorria na sua escrita, ao desconstruir expressões e provérbios.

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Paulo Nóbrega Serra
Written by Paulo Nóbrega Serra
Sou doutorado em Literatura com a tese «O realismo mágico na obra de Lídia Jorge, João de Melo e Hélia Correia», defendida em Junho de 2013. Mestre em Literatura Comparada e Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, autor da obra O Realismo Mágico na Literatura Portuguesa: O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge e O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo, fruto da minha tese de mestrado. Tenho ainda três pequenas biografias publicadas na colecção Chamo-me: Agostinho da Silva, Eugénio de Andrade e D. Dinis. Colaboro com o suplemento Cultura.Sul e com o Jornal Postal do Algarve, e tenho publicados vários artigos na área dos estudos literários. Trabalhei como professor do ensino público cerca de 10 anos e ministrei formações. De Agosto de 2014 a Setembro de 2017, fui Docente do Instituto Camões em Gaborone na Universidade do Botsuana e na SADC, sendo o responsável pelo Departamento de Português da Universidade e ministrei cursos livres de língua portuguesa a adultos. Realizei um Mestrado em Didáctica do Português e das Línguas Clássicas e uma pós-graduação em Ensino Especial. Ler é a minha vida e espero continuar a espalhar as chamas desta paixão entre os leitores amigos que por aqui passam. Resido actualmente na cidade da Beira, Moçambique, onde coordeno um Centro Cultural Português, do Camões, dois Centros de Língua Portuguesa, nas Universidades da Beira e de Quelimane. Sou docente na Universidade Pedagógica da Beira, onde leciono Didáctica do Português a futuros professores.