Ponta Gea é o mais recente livro de João Paulo Borges Coelho e provavelmente o mais corajoso, assumindo não somente uma narrativa feita na primeira pessoa como também uma perspectiva em que os acontecimentos narrados são filtrados a partir do espaço-memória de infância. O autor, muitas vezes enquanto criança, rememora os lugares que persistem, muitas vezes, apenas na memória e na imaginação de uma cidade inventada.
Não posso deixar de assumir eu próprio esta recensão como um levantamento topográfico feito na primeira pessoa, uma vez que quando a Caminho publicou esta obra e gentilmente ma enviou como oferta, estava longe de imaginar que uns meses depois eu próprio estaria a viver ao lado da Ponta Gea, na cidade da Beira, local que ainda recentemente foi notícia, pelas piores razões.
O título do livro tem origem no nome de um bairro da cidade da Beira, «com centro nas coordenadas 19º50’47.14”S e 34º50’25.91’E.
Composto por quinze textos que se interseccionam, e que podem ser lidos numa sequência cronológica, ou isoladamente, como se se tratassem de crónicas, as memórias do autor correm aqui o risco de ressurgir ficcionadas. Escreve o autor no «Preâmbulo»:
«A infância não é um lugar, nem tão-pouco um tempo. O que é ela, afinal?
Se tomássemos a imagem das ilhas, estaríamos neste livro face a um arquipélago de episódios em que o núcleo de cada um me fosse imposto com insistente nitidez, mas em que as margens, mais incertas, exigissem um esforço contrário ao de evocar – o esforço da partida.» (p. 11)
Para o autor, pelo menos assim se refere no livro, Ponta Gea não se trata de um livro de memórias da infância, mas de um exercício de ficção, de como o mundo era visto a partir dessa idade em que, como escreveu Proust, «se acredita que criamos aquilo que nomeamos». Na linha de autores que João Paulo Borges Coelho admira, como Thomas Bernhard ou W. G. Sebald, o deambular parece associado ao rememorar, e o recontar associado a um relembrar que se reinventa, mesmo que o autor nos apresente recortes de jornais e fotografias que procuram cristalizar essa memória fidedigna.
«Se evocar for trazer para a idade adulta, então talvez a infância seja, no seu sentido mais puro, aquilo de misterioso que se nos escapa por entre os dedos quando evocamos, a viagem que nunca chegou a ser feita e por isso resiste incólume à passagem do tempo. A potência daquilo que imaginamos poder ainda vir a ser.» (p. 12)

A memória como História

Autor já apresentado no Cultura.Sul, João Paulo Borges Coelho nasceu no Porto em 1955, embora por vezes se possa ler que terá nascido em Moçambique. Frequentou o Liceu na Beira e vive em Maputo. Doutorado pela Universidade de Bradford, é historiador, professor catedrático de História na Universidade Eduardo Mondlane e é professor convidado do Mestrado em História de África na Universidade de Lisboa e romancista.
Estreou-se na ficção com As Duas Sombras do Rio (2003) e venceu em 2009 o Prémio Leya com O Olho de Hertzog. Ponta Gea é o seu décimo primeiro romance, editado em Portugal pela Caminho e, em Moçambique, com a chancela da Editora Ndjira, da Leya.
A incógnita está desde logo patente no título. Esse bairro situado na cidade da Beira, na província de Sofala, em Moçambique, é usualmente grafado como Ponta Gêa. Há quem diga que Gea, que o autor opta por escrever sem o acento circunflexo, é o feminino de Geo – Terra. Esta obra resulta assim num documentário, entre as recordações e a reportagem, ou fabricação.
Assim que iniciamos a leitura, a prosa revela-se como tendo verdadeiros arroubos poéticos:
«É a primeira e mais persistente lembrança: a água como substância da cidade. Uma água quieta, no mangal como nos capinzais, nos tandos de arroz e nos baldios urbanos cuja noite o monótono som dos grilos trespassava; insidiosa também, na onda paciente que escavava a areia grossa e se espraiava até lamber a raiz torturada das casuarinas, enchendo os corvos de maus presságios e de indignação; e avassaladora, nas chuvadas súbitas e no ar carregado que toldava o horizonte e nos pesava, derrotados, sobre os ombros. Uma água cálida onde nadam todos, aqueles de cujo rasto ainda a espaços me vou apercebendo, e os outros, os que vogam em círculos como peixes aprisionados no aquário do esquecimento.» (p. 13)
É a água a substância que tudo rodeia na cidade da Beira e no bairro da Ponta Gêa. No mar que se espraia pela cidade, onde ainda restam canhões apontados, ao longo da linha de costa; no porto que traz vida e comércio; a água que entra pelos canais que atravessam a cidade, e por vezes alagam a estrada; a água que corre dos rios e aflui para o mar, dando-lhe uma cor acastanhada; a água da humidade e de um calor opressivo feito de transpiração e sal. Ou a chuva, quando finalmente decide abençoar os beirenses: «desaba a chuva vertical e com ela a euforia mansa que me invade sempre que chove assim, por soar a fim do mundo» (p. 291).

«Tudo nesse tempo era doce e girava ao meu redor.» (p. 292)

Ainda que por vezes haja uma certa alternância ou inconstância em termos do plano temporal em que a voz narrativa, assumida na primeira pessoa, se decide situar – «Tudo nesse tempo era doce e girava ao meu redor.» (p. 292) –, o eu da história evoca os acontecimentos, quase sempre, a partir de um tempo presente, como se o passado se voltasse a desenrolar num agora contínuo, como quando evoca as brincadeiras e explorações próprias da infância:
«Vamos agora calados, ansiosos por chegar ao areal da praia. Parece ser aqui o coração do mangal. Aos poucos vão surgindo árvores de mpia e grandes nhacandalas que nos fazem sentir ainda mais pequenos e vulneráveis. Todavia, é tarde para recuar. Teríamos de vencer inúmeros obstáculos, desde a vergonha de uma cobardia assim até à insatisfação de uma curiosidade infantil, mas agudíssima. (…) No chão, os buracos dos caranguejos são agora bocas enormes capazes de engolir até ao joelho uma perna distraída, mas felizmente nenhum dos monstros surge para nos interpelar. (…) Está na potência que as coisas pequenas encerram, na possibilidade de se tornarem monstruosas, a força e a magia deste lugar.» (p. 68)
E já nessa infância se pressente como o mundo é um espaço maior, também cheio de incerteza e de complexidades nem sempre justas:
«Mete medo um silêncio assim. Entramos muito juntos, torneando abrigos de paus e palha (que o são mais do que casas), baixos, como se tivessem sido feitos para gente pequena ou então para fintar o vento das tempestades. As paredes são quase todas de nhacandala grossa, a estrutura dos tectos feita com as estacas mais finas dessa mesma árvore. Cobrem-nos depois com todo o tipo de coisas a que conseguem deitar mão, desde caniços e palha a chapas e tampas de bidão enferrujadas, e plásticos de cores vivas que dão ao lugar um aspecto alegre de mosaico. (…) Os cheiros são os cheiros da pobreza misturados com o cheiro do sal, do peixe, das algas secas e das feridas frescas das árvores. Passamos por tudo isto rapidamente, na ânsia de chegar à praia. É um espaço que não nos diz respeito e que por isso encaramos com fingido desinteresse. Não queremos atrair as atenções.» (p. 71)
Há ainda um certo jogo no rememorar conforme o autor-narrador brinca nãos er capaz de relembrar tudo, impondo assim limites à memória: «Um tractor sem idade, expelindo um fumo obstinado para o meio do dilúvio, e um som que não conseguia impor-se na natureza e portanto me está hoje vedado recordar.» (p. 292). Mas se a memória por vezes falha ao lembrar, ou porque, segundo o autor, as circunstâncias em que a memória foi feita não permite justamente uma recriação que seria inexacto recordar com sons que não se ouviram nesse instante de outrora, linhas depois já será possível relembrar com exactidão o som de outrora: «e prosseguiu lentamente a descida do monte espalhando um discreto ruído que afinal já recordo, de máquina de costura, um som de agulha alinhavando o rego aberto no tecido crespo da encosta.» (p. 292) Como a própria memória que vai cozendo as linhas do tempo, mesmo quando tem de juntar ficção com realidade.
Esse espaço da infância é, aliás, quase sempre, um espaço de confronto com realidades mais sórdidas ou fantásticas, onde não faltam pequenas histórias de roubos, homicídios, cabarés, corpos que dão à costa, e outros prodígios de feira e circo. Fica no fim a sensação de que este livro narra também o percurso e formação do jovem hoje escritor e de que findo o Liceu na Beira novas descobertas se avizinham.

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Paulo Nóbrega Serra
Written by Paulo Nóbrega Serra
Obtive o grau de doutor em Literatura com a tese «O realismo mágico na obra de Lídia Jorge, João de Melo e Hélia Correia», em Junho de 2013. Mestre em Literatura Comparada e Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, autor da obra O Realismo Mágico na Literatura Portuguesa: O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge e O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo, fruto da minha tese de mestrado. Tenho ainda três pequenas biografias publicadas na colecção Chamo-me: Agostinho da Silva, Eugénio de Andrade e D. Dinis. Colaboro com o suplemento Cultura.Sul e com o Jornal Postal do Algarve, e tenho publicados alguns artigos na área dos estudos literários. Trabalhei como professor do ensino público cerca de 10 anos, ministrei formação. Fui Docente do Instituto Camões em Gaborone na Universidade do Botsuana e na SADC, sendo o responsável pelo Departamento de Português da Universidade e ministrei cursos livres de língua portuguesa a adultos. Realizei entretanto um Mestrado em Didáctica do Português e das Línguas Clássicas, frequento uma formação online de promoção da leitura e preparo-me para uma de revisão. Ler é a minha vida e espero continuar a espalhar as chamas desta paixão entre os leitores amigos que por aqui passam. Resido actualmente na cidade da Beira, Moçambique.