José Saramago dispensa apresentaçõesde tal modo  que esta nossa escolha pode até provocar surpresa. Autor de mais de 40 obras, nasceu em 1922, na aldeia de Azinhaga, e viveu até 2010, em Lanzarote. José Saramago construiu uma obra incontornável na literatura portuguesa e universal, sendo certamente uma importante referência para o nosso país em termos internacionais, com obras traduzidas por todo o mundo, e outras como Ensaio sobre a Cegueira, O Homem duplicado, ou A Jangada de Pedra, adaptadas ao cinema. José Saramago recebeu o Prémio Camões em 1995 e o Prémio Nobel da Literatura em 1998, e continua presente na nossa memória, sendo inclusive referência no chamado “cânone” literário, nos programas curriculares do ensino do Português: o Memorial do Convento figurou nos programas de ensino secundário, sendo agora substituído por O Ano da Morte de Ricardo Reis, escolha aliás que parece fazer todo o sentido, na medida em que se interrelaciona com os conteúdos programáticos do secundário, que abrangem a poesia pessoana. O autor já tem sido dado a conhecer até aos mais novos, com o seu belíssimo conto, A maior flor do mundo, cujos excertos figuraram aliás numa prova de final de ciclo do ensino básico. Entre diversos títulos que nos deixou, como Caim ou A Viagem do Elefante, os seus livros mais recentes e, diríamos, mais “ligeiros”, o autor deixou ainda obras de grande fôlego (e polémica), como o controverso Evangelho segundo Jesus Cristo.

São nove os títulos que regressaram neste último mês às livrarias, em edições revistas e com novas capas, que contam com o contributo de grandes figuras da literatura e cultura portuguesa: Siza Vieira, Baptista-Bastos, Eduardo Lourenço, Dulce Maria Cardoso, Gonçalo M. Tavares, Júlio Pomar, Lídia Jorge, Mário de Carvalho e Valter Hugo Mãe caligrafaram o título para a capa de cada um dos nove livros.

Mas cabe-nos, neste espaço, dedicar alguma atenção ao livro História do Cerco de Lisboa. O próprio título brinca com o leitor de forma irónica, ao jeito da pós-modernidade, ao anunciar uma História, quando não é, na verdade, um romance histórico embora seja o mais próximo de entre os romances de Saramago, aquele em que o discurso da História ocupa maior lugar. Problematizar o nosso conhecimento da História prende-se com a literatura pós-25 de Abril, numa subversão da verdade de uma História oficial pouco credível salazarista: «hábito de julgarmos tudo segundo ideias adquiridas, da nossa insaciável curiosidade apesar dos limites impostos ao nosso espírito, da inclinação que nos leva a encontrar mais analogias entre as coisas do que as que realmente têm» (pág. 14). Contestar o discurso oficial da História instaurado por regimes fascistas, atacando as definições e verdades em que essas “instituições” assentam, criando novas versões da História. Esta rasura é o que Raimundo faz ao escrever o Não no rascunho de que era revisor: o deleatur de que se fala no primeiro capítulo surge como metáfora deste processo que cria uma obra aberta onde a própria História parece dobrar o tempo e desacontecer ou, melhor dizendo, reacontecer de forma diversa.

Ao longo do romance, entrecruzam-se dois enredos: a versão romanesca que Raimundo Silva cria da História de Lisboa no século XII, que começa com um Não antes do verbo, baseada numa suposição errada, negando uma verdade histórica, ainda que a sua reconstrução histórica seja cuidada, realisticamente minuciosa, inclusive na linguagem da época, com exatidão histórica e detalhada; e noutro plano, o enredo que, no tempo presente, se centra no próprio processo da escrita e de como escrever História, instaurando um carácter profundamente metatextual da narrativa, onde se joga com três planos. Primeiro, a versão da História do Cerco de Lisboa criada pelo autor historiador apresentada na parte inicial, em que se conta a história do cerco de 1147, em que os cruzados ingleses chegaram a Lisboa, cidade ocupada então pelos mouros e que cinco meses depois se rendeu aos cristãos. Segundo, a Nova História do Cerco de Lisboa, criada pela personagem Raimundo Silva, onde se descobrem filões ou novas possibilidades, versões alternativas ou escondidas da verdade, na possibilidade de os cruzados terem ajudado o rei D. Afonso Henriques em troca do saque e do senhorio de terras conquistadas. O revisor pondera então a reação dos portugueses, do dito povinho (dos fracos e oprimidos) de que não reza a História. Por último, a nova versão da História instaura-se no próprio processo de escrita da mesma, devido ao peso da palavra; e a história de que o próprio narrador se apropria e recria, num palimpsesto e mise-en-âbime, que sintetiza as outras duas e que é aquela que o leitor tem nas mãos: «A cidade murmura as orações, o sol apontou e ilumina as açoteias, não tarda que nos pátios apareçam os moradores. A almádena está em plena luz. O almuadem é cego./Não o tem descrito assim o historiador no seu livro. Apenas que o muezim subiu ao minarete e dali convocou os fiéis à oração na mesquita, sem rigores de ocasião, se era manhã ou meio-dia, ou se estava a pôr-se o sol, porque certamente em sua opinião, o miúdo pormenor não interessaria à história, somente que ficasse o leitor sabendo que o autor conhecia das coisas daquele tempo o suficiente para fazer delas responsável menção.» (pág. 8).

O próprio revisor é incomum, à semelhança de outras personagens de Saramago, pelo gesto de infracção que comete, de rasura do passado, ao cometer um erro no seu trabalho, quando escreve o fatídico Não que altera tudo e dá propósito ao livro. O dito revisor, um homem na meia-idade, que vive à margem da sociedade, de forma simples, regrada, autómata, baça será, paradoxalmente, recompensado pela sua falha, tanto com uma promoção no trabalho, ao ser convidado a tornar-se autor, escrevendo a sua própria versão da história que antes revia, como pelo amor que esse ato de rebeldia chama à sua vida. E é desta forma que, por último, e a reforçar a inventividade de Saramago, surge ainda uma outra interpretação do título do livro, em que a palavra Cerco remete para o próprio ritual de corte, pois este revisor vai acabar por se apaixonar.

O título e tema do livro remetem-nos assim para outro assunto tão antigo quanto o tempo ou a guerra: uma metáfora do amor por uma mulher, e da conquista amorosa, cercando-a através da escrita: «Aturdido pelo contacto, Raimundo Silva levantou a cabeça, queria olhar, ver, saber, ter a certeza de que era a sua própria mão que ali estava, agora sim, o muro invisível desmoronava-se, para além dele ficava a cidade do corpo, ruas e praças, sombras, claridades, um cantar que vem não se sabe donde, as infinitas janelas, a peregrinação interminável.» (pág. 190). O livro é, aliás, escrito na cama, e não no escritório onde habitualmente revia as provas, e é também na brancura dos lençóis por estrear que se dá a consumação do acto amoroso de Raimundo e Maria Sara.

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Paulo Nóbrega Serra
Written by Paulo Nóbrega Serra
Obtive o grau de doutor em Literatura com a tese «O realismo mágico na obra de Lídia Jorge, João de Melo e Hélia Correia», em Junho de 2013. Mestre em Literatura Comparada e Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, autor da obra O Realismo Mágico na Literatura Portuguesa: O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge e O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo, fruto da minha tese de mestrado. Tenho ainda três pequenas biografias publicadas na colecção Chamo-me: Agostinho da Silva, Eugénio de Andrade e D. Dinis. Colaboro com o suplemento Cultura.Sul e tenho publicados alguns artigos na área dos estudos literários. Trabalhei como professor do ensino público cerca de 10 anos, ministrei formação e sou actualmente Leitor do Instituto Camões em Gaborone na Universidade do Botsuana e na SADC, sendo o responsável pelo Departamento de Português da Universidade e onde ministro cursos livres de língua portuguesa a adultos. Realizei entretanto um Mestrado em Didáctica do Português e das Línguas Clássicas, frequento uma formação online de promoção da leitura e preparo-me para uma de revisão. Ler é a minha vida e espero continuar a espalhar as chamas desta paixão entre os leitores amigos que por aqui passam.