Quase parece trivial escrever sobre esta autora, tão conhecida se tornou… Isabel Allende exilou-se nos Estados Unidos da América, dois anos após o golpe militar de Pinochet no Chile, visto encontrar-se numa situação delicada por ser uma jornalista mais ou menos popular e sobrinha de Salvador Allende, o presidente chileno assassinado, bem como enteada do embaixador da Argentina. Quando veio a saber que o avô estava a morrer no Chile começou a escrever-lhe uma carta que se tornou infindável e deu origem a esse fabuloso romance, A Casa dos Espíritos, um êxito editorial um pouco por todo o mundo, depois adaptado ao cinema, tendo sido inclusivamente filmado em Portugal. Isabel Allende referiu em entrevista que, apesar da sua escrita ser enquadrada no realismo mágico, usa sempre o real para escrever. Ao lermos o seu romance Paula, que é próximo do registo diarístico e teve como ponto de partida a situação traumática da doença da sua filha, que entrou depois em coma até que acabou por morrer, podemos realmente constatar como a história da família que Isabel escreve à cabeceira da filha – para que ao acordar ela não se sinta tão perdida – tem diversos pontos em comum com o que nos é narrado em A Casa dos Espíritos e que, aparentemente, parecia ser puramente fantástico.

O romance A Casa dos Espíritos conta-nos a história de uma família que atravessa o século XX em três gerações, com uma vasta panóplia de elementos insólitos ou maravilhosos, como o caso da cabeça decapitada de Nívea, encontrada por Clara e depois esquecida na cave; Barrabás, uma criatura que nunca percebemos tratar-se de um cão ou de um estranho animal mitológico; a máquina voadora do tio Marcos que consegue efetivamente levantar voo, numa época em que não havia ainda aeroplanos; ou o facto de Clara permanecer com a filha na barriga apesar de o termo da gravidez já ter sido ultrapassado num mês; a aparição de Férula que entra na sala de jantar e beija Clara, voltando a sair, sem que ninguém se aperceba de que era um fantasma, exceto a própria Clara, que avisa a família de que a cunhada morreu; a pequena Alba que nascerá com os cabelos verdes como a sua tia-avó Rosa; a maldição que Férula lança ao irmão Esteban Trueba, de que encolherá com o tempo e morrerá sozinho; o tio Nicolau que passou um ano como mendigo, percorrendo a pé os caminhos do oriente, para voltar como um faquir vegetariano, capaz de exercer total domínio sobre a mente, permitindo-lhe atravessar-se com alfinetes e manter-se três minutos sem respirar. As personagens são várias, mas destaca-se o facto de serem sempre as mulheres o centro da narrativa: Clara, a filha de Nívea, que será mãe de Blanca, e avó de Alba. O significado dos nomes é revelador: Clara significa luz e lucidez, alguém que ilumina o caminho, pois os seus dons de clarividência permitem muitas vezes antecipar o futuro, da mesma forma que os seus diários permitirão à neta resgatar, ordenar e reconstituir o passado da família. É também após a sua morte que o livro perde a atmosfera beatífica da magia e a violência toma conta do cenário da acção e vitimiza a família. O nome de Clara reforça as capacidades de clarividência de que a personagem é dotada. Blanca é filha de Clara e forma o elo seguinte dessa sequência de nomes associados à luminosidade. A última mulher dessa família será Alba, cujo nome significa alvorada: «A mãe queria chamar-lhe Clara, mas a avó não era partidária de repetir os nomes da família, porque isso cria confusão nos cadernos de anotar a vida. Procuraram um nome num dicionário de sinónimos e descobriram o seu, que é o último de uma cadeia de palavras luminosas que querem dizer o mesmo.». O capítulo seguinte à morte de Clara é intitulado justamente de «A Época da Decadência»: «Alba sabia que a avó era a alma da grande casa da esquina. Os outros souberam-nos mais tarde, quando Clara morreu e a casa perdeu as flores, os amigos que iam e vinham e os espíritos brincalhões e entrou em pleno na época da desordem.». É importante salientar que quase toda a magia que encontramos ao longo da narrativa existe em consequência ou por irradiação dos poderes e da natureza de Clara, a clarividente. Daí que, após a sua morte, a casa que o marido havia justamente construído para ela comece a decair, do mesmo modo que toda essa dimensão mágica dominante na obra se afaste como um véu soprado. E, com toda a dor e crueldade da Revolução, o romance prende-se a assuntos muito mais terrenos, quase como um violento despertar para a vida, uma brutal intrusão do mundo real naquele reino encantado. A magia dissipa-se na exata proporção em que aumenta a violência do poder político. Isabel Allende fala recorrentemente da sua avó, que foi quem lhe inspirou esta personagem: «Fui criada a ouvir comentários acerca do talento da minha avó em redizer o futuro, ler na mente alheia, dialogar com os animais e fazer mexer objectos com o olhar. Contam que uma vez fez deslocar uma mesa de bilhar pelo salão, mas na verdade a única coisa que vi a mexer na sua presença foi um insignificante açucareiro, o qual, à hora do chá, costumava deslizar, errático, sobre a mesa.». Os poderes mágicos que as personagens de Clara e Branca detêm parecem ser uma forma de se proteger, de compensarem e contestarem a tirania que lhes é imposta pelo homem, quer nos comportamentos violentos de Esteban ou de Pássaro, quer na autoridade governativa assente num poder patriarcal. O segundo romance da autora, De Amor e de Sombra, abandona por completo esse realismo mágico sul-americano e prossegue em tom quase de crónica jornalística, sendo uma obra política que relata acontecimentos verídicos ocorridos durante a ditadura chilena (este livro foi igualmente adaptado ao cinema mas passou-nos despercebido). Isabel Allende tem como ritual iniciar um romance todos os anos, no dia 8 de Janeiro, mas a verdade é que ultimamente os seus romances tornaram-se mais históricos, por vezes demasiado exaustivamente (Inês da minha alma), outras vezes de forma mais efabulada e melhor conseguida, como em Filha da Fortuna ou Retrato a Sépia (que, aliás, constituem um tríptico com A Casa dos Espíritos). Curiosamente tem sido nas suas obras de literatura juvenil que essa dimensão de efabular histórias fabulosas parece continuar viva, como em A cidade dos deuses selvagens, prendendo tanto os jovens como os adultos. O seu último livro saiu agora, intitulado O jogo de Ripper, onde a autora mostra agora como é capaz de variar em termos de género de escrita, aventurando-se no romance policial, mas mantendo constantes algumas das suas linhas de escrita como a relação entre personagens de diferentes gerações (agora que já é avó). Este livro volta a prender o leitor e parece ser um agradável regresso à qualidade e originalidade de outros romances seus.

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Paulo Nóbrega Serra
Written by Paulo Nóbrega Serra
Obtive o grau de doutor em Literatura com a tese «O realismo mágico na obra de Lídia Jorge, João de Melo e Hélia Correia», em Junho de 2013. Mestre em Literatura Comparada e Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, autor da obra O Realismo Mágico na Literatura Portuguesa: O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge e O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo, fruto da minha tese de mestrado. Tenho ainda três pequenas biografias publicadas na colecção Chamo-me: Agostinho da Silva, Eugénio de Andrade e D. Dinis. Colaboro com o suplemento Cultura.Sul e com o Jornal Postal do Algarve, e tenho publicados alguns artigos na área dos estudos literários. Trabalhei como professor do ensino público cerca de 10 anos, ministrei formação. Fui Docente do Instituto Camões em Gaborone na Universidade do Botsuana e na SADC, sendo o responsável pelo Departamento de Português da Universidade e ministrei cursos livres de língua portuguesa a adultos. Realizei entretanto um Mestrado em Didáctica do Português e das Línguas Clássicas, frequento uma formação online de promoção da leitura e preparo-me para uma de revisão. Ler é a minha vida e espero continuar a espalhar as chamas desta paixão entre os leitores amigos que por aqui passam. Resido actualmente na cidade da Beira, Moçambique.