Jean Auel é conhecida por um único conjunto de obras, a Saga dos Filhos da Terra.

Os primeiros quatro títulos desta saga só foram traduzidos em Portugal pela Europa-América em questão (ainda que a qualidade de tradução e edição desta editora sejam discutíveis), embora sejam também já quase impossíveis de encontrar.

Em 2006, a Esfera dos Livros avançou com nova tradução e edição de O Clã do Urso das Cavernas (originalmente publicado em 1980) e uns quantos volumes depois a editora Clube do Autor decidiu, em boa hora, publicar o último desta saga, intitulado A Mãe Terra. Este título não faz justiça ao título original em inglês, que é The land of painted caves, o sexto volume da saga.

A nota negativa a fazer nesta recensão é mesmo a da infelicidade de as editoras que decidiram apostar nesta autora que tem 45 milhões de seguidores em todo o mundo ignoraram completamente a ideia de continuidade de uma saga. É preciso reconhecer que para ler esta saga é realmente necessário ter tempo, paciência e persistência, pois já vamos em 6 volumes e cada um dos livros não tem menos de 600 páginas cada. Todavia, é possível assegurar aos leitores que as traduções da Europa-América não são más, muito pelo contrário, apesar de virem divididas em dois tomos (hábito usual a esta editora, aliás) e de os volumes traduzidos terem sido integrados na coleção Nébula, que pertence ao domínio da Ficção científica.

A autora fez uma apurada pesquisa histórica e em diversos momentos dos seus livros são-nos descritos momentos de forma exaustiva, com precisão e rigor histórico e científico, de certas situações e ações quotidianas como acender o fogo, fabricar instrumentos de caça, modo de confecionar alimentos ou de preparar peles, propriedades curativas de plantas, etc.. Daí que seja preciso alguma persistência e gosto pela informação histórica em que estes livros são ricos. Por outro lado, a fantasia também prima nesta saga, nomeadamente porque a personagem de Ayla irá destacar-se como líder espiritual, daí que sejam recorrentes as referências a presságios, sonhos, ao contacto com o mundo dos espíritos e às viagens astrais de Ayla (em que o espírito deixa o corpo e viaja livremente pelo espaço).

A saga segue assim a vida desta jovem, encontrada aos 4 ou 5 anos, depois de ter sobrevivido a um ataque de um grande leão das cavernas, de que guarda aliás a cicatriz feita pela garra do leão, e que é resgatada e adotada por uma mulher que pertence ao clã do urso das cavernas, um grupo de homens Cro-Magnon.

A autora segue nos seus livros a hipótese de que os homens de Cro-Magnon terão convivido com o Homem de Neanderthal em certas zonas da Europa. Contudo, esse convívio não parece ter sido pacífico, tanto que o clã coloca fortes entraves à inclusão da menina, e, no segundo volume da saga, percebemos que a espécie mais evoluída do homem de Neanderthal sente aversão pelos Cro-Magnon, referindo-se-lhes como Cabeças Achatadas.

Ayla irá então enfrentar diversos desafios ao longo do primeiro volume, a começar por uma rejeição quase absoluta de todo o clã, acolhida apenas por Iza, a curandeira, e Mogur, o líder espiritual, uma espécie de xamã, que a irão também amar como se fosse sua filha e educar. Desde cedo, percebemos que Ayla é efetivamente muito inteligente e recusa-se a seguir as convenções impostas às outras mulheres do clã, por exemplo quando segue os homens e aprende a caçar por si própria, atividade absolutamente proibida ao sexo feminino. Ayla irá mesmo criar a sua funda e torna-se perita em lançamentos rápidos, conseguindo atirar duas pedras seguidas, e com pontaria precisa. A mulher do clã pretende-se também submissa pelo que a jovem Ayla, já quase mulher, começa a ser violada por um dos homens do clã e acaba por ser mãe. No final Ayla é expulsa, sendo considerada como morta para todo o clã, que se recusa a reconhecer a sua existência, fingindo que não a veem e não lhe dirigindo a palavra.

No segundo volume da saga, O vale dos Cavalos, seguimos alternadamente o período de reclusão de Ayla num vale e Jondalar, que partiu numa espécie de busca com o irmão, para conhecer outros povos que vivem em regiões mais distantes do seu povo, os Zelandonii. Ayla depois de ser expulsa pelo clã enfrenta as agruras de um clima agreste próprio da era glaciar e caminha durante um longo período até encontrar um vale que lhe parece agradável e propício à sua sobrevivência, onde  encontra também a gruta ideal que se tornará na sua morada durante os próximos anos, onde vive completamente isolada, a tentar perceber o que é isso de ser considerada morta para o clã. Até que percebe que afinal a sua vida continua quando subitamente salva Jondalar, mas isso só acontecerá umas três primaveras mais tarde… Entretanto seguimos a vida própria de um eremita que esta jovem leva e percebemos os desafios que na época os nossos antepassados enfrentavam. Ayla irá ainda domesticar uma égua, atrevendo-se mesmo a montá-la e depois a usá-la para transportar cargas mais pesadas. Mais incrível ainda é o momento em que Ayla encontra um leão das cavernas bebé e decide adoptá-lo. Mais tarde, conhece Jondalar ao salvá-lo de um ataque de um leão e acolhe-o na sua gruta, assistindo e ajudando à sua recuperação. Ayla aprenderá a comunicar oralmente (pois o clã comunicava gestualmente) e irá assombrar Jondalar com os conhecimentos que possuiu como curandeira, a sua capacidade de caçar e a forma como aprendeu a fazer fogo. Até que ambos se apaixonam e Ayla aprende as alegrias de partilhar os prazeres com um homem, depois de ter sido abusada por diversas vezes entre os homens do clã.

No terceiro volume, Os caçadores de Mamutes, Jondalar e Ayla decidem partir em busca do povo dele, num regresso a casa, e encontram os Mamutoi. Ayla conhece pela primeira vez outros como ela, além de Jondalar, e apesar do receio de Jondalar, dada a sua diferença em termos de comportamento, por ter vivido entre os cabeças achatadas, Ayla será vista por todos como uma mulher que parece encarnar a essência de Mut, a Mãe Terra, nomeadamente na sua capacidade de comunicar com os animais, de os fazer obedecer, e pelas suas artes curativas, além da sua inegável beleza e porte distinto.

Em As Planícies de passagem o casal continuará o seu caminho em busca do povo de Jondalar, vivendo novas aventuras. O único título que não está traduzido é o quinto volume, The shelters of stone (2002). No último volume, A Mãe Terra, iremos deparar-nos com o que poderá ser uma conclusão desta viagem até à Idade do Gelo, através da Europa que existiu entre 35 e 25 mil anos a.C., num volume onde se abordará ainda o misticismo das cavernas sagradas e, como o título indica, das pinturas rupestres, quando Ayla e Jondalar são já pais, de uma menina chamada Jonayla, o que simboliza a junção dos seus espíritos.

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Paulo Nóbrega Serra
Written by Paulo Nóbrega Serra
Obtive o grau de doutor em Literatura com a tese «O realismo mágico na obra de Lídia Jorge, João de Melo e Hélia Correia», em Junho de 2013. Mestre em Literatura Comparada e Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, autor da obra O Realismo Mágico na Literatura Portuguesa: O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge e O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo, fruto da minha tese de mestrado. Tenho ainda três pequenas biografias publicadas na colecção Chamo-me: Agostinho da Silva, Eugénio de Andrade e D. Dinis. Colaboro com o suplemento Cultura.Sul e tenho publicados alguns artigos na área dos estudos literários. Trabalhei como professor do ensino público cerca de 10 anos, ministrei formação e sou actualmente Leitor do Instituto Camões em Gaborone na Universidade do Botsuana e na SADC, sendo o responsável pelo Departamento de Português da Universidade e onde ministro cursos livres de língua portuguesa a adultos. Realizei entretanto um Mestrado em Didáctica do Português e das Línguas Clássicas, frequento uma formação online de promoção da leitura e preparo-me para uma de revisão. Ler é a minha vida e espero continuar a espalhar as chamas desta paixão entre os leitores amigos que por aqui passam.