Num tempo em que o racismo, talvez sempre latente, parece eclodir e difundir-se, nem sempre sob a forma de violência física, falo deste livro de um autor sobejamente conhecido mas cuja obra só mais recentemente, e em boa hora, começa a ser publicada em Portugal pela Alfaguara.
Como pode ler-se na contracapa do livro: «Se esta rua falasse, esta seria história que contaria: Tish, 19 anos, apaixona-se por Fonny, que conhece desde criança.»
Como um Romeu e Julieta dos tempos que então se viviam (o romance foi originalmente publicado em 1974), o amor de Clementine (Tish) e Fonny será posto à prova assim que desperta e se torna visível para os que os rodeiam. É a profunda ligação que partilham, cuja manifestação viva desse amor é a criança de 3 meses gerada no ventre de Tish e que vai crescendo ao longo dos próximos 6 meses em que decorre a acção (com algumas analepses), que lhes permite fazer frente à injustiça do sistema judicial norte-americano e do «maldito homem branco». Como nos narra Tish: «A mesmíssima paixão que salvou Fonny acabou por lhe arranjar sarilhos e atirá-lo para a cadeia. Porque, sabem, ele tinha encontrado o cerne, o seu próprio cerne, dentro dele: e notava-se. Ele não era o preto de ninguém. E isso é crime nesta porcaria de país livre. Devemos ser o preto de alguém. E, se não formos o preto de alguém, somos um mau preto» (p. 46)
James Baldwin nasceu em Nova Iorque em 1924. Cresceu e estudou no bairro de Harlem. Em 1948 partiu para França fugindo ao racismo e homofobia dos Estados Unidos. Em 1953 publicou o seu primeiro romance, Go tell it on the mountain (que será publicado este ano pela Alfaguara) e cedo se destacou como romancista, ensaísta, poeta e dramaturgo. Foi uma das vozes mais influentes do movimento de direitos civis e o primeiro artista afro-americano a figurar na capa da revista Time. Em 2017, trinta anos após a sua morte, foi profusamente relembrado com I am not your negro, um documentário baseado na sua obra, narrado pela sua própria voz em voz-off.
Se esta rua falasse (If Beale Street Could Talk) é o seu quinto romance, e foi adaptado ao cinema por Barry Jenkins, o realizador de Moonlight, que recebeu o Óscar de Melhor Filme em 2016. A estreia do filme está prevista em Portugal para 21 de Fevereiro.

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Paulo Nóbrega Serra
Written by Paulo Nóbrega Serra
Sou doutorado em Literatura com a tese «O realismo mágico na obra de Lídia Jorge, João de Melo e Hélia Correia», defendida em Junho de 2013. Mestre em Literatura Comparada e Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, autor da obra O Realismo Mágico na Literatura Portuguesa: O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge e O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo, fruto da minha tese de mestrado. Tenho ainda três pequenas biografias publicadas na colecção Chamo-me: Agostinho da Silva, Eugénio de Andrade e D. Dinis. Colaboro com o suplemento Cultura.Sul e com o Postal do Algarve (distribuídos com o Expresso no Algarve e disponíveis online), e tenho publicado vários artigos e capítulos na área dos estudos literários. Trabalhei como professor do ensino público de 2003 a 2013 e ministrei formações. De Agosto de 2014 a Setembro de 2017, fui Docente do Instituto Camões em Gaborone na Universidade do Botsuana e na SADC, sendo o responsável pelo Departamento de Português da Universidade e ministrei cursos livres de língua portuguesa a adultos. Realizei um Mestrado em Didáctica do Português e das Línguas Clássicas e uma pós-graduação em Ensino Especial. Vivi entre 2017 e Janeiro de 2020 na cidade da Beira, Moçambique, onde coordenei o Centro Cultural Português, do Camões, dois Centros de Língua Portuguesa, nas Universidades da Beira e de Quelimane. Fui docente na Universidade Pedagógica da Beira, onde leccionava Didáctica do Português a futuros professores. Resido agora em Díli, onde trabalho como Perito de um Projecto de Cooperação e lecciono na UNTL. Ler é a minha vida e espero continuar a espalhar as chamas desta paixão entre os leitores amigos que por aqui passam.