Dizer «Eu amo-te» é talvez das palavras ou fórmulas mais antigas na história da humanidade. Muito provavelmente já se veiculava estas palavras por gestos ou por actos ainda antes de o homem dominar a linguagem verbal. Muito certamente são das palavras mais usadas em todo o mundo e, como tudo o que é proferido, transportam consigo uma energia. E todos os dias ouvimos pessoas que sofrem por falta de amor… Até aqui nada de novo. O que é aqui avançado por Sri Prem Baba neste magnífico pequeno livro da Pergaminho, é que o nosso relacionamento com o outro, nomeadamente o relacionamento afectivo e sexual, é o mais poderoso catalisador e ativador da verdade, da mesma forma que é através do acto de amar que o ser humano (enquanto ser espiritual que vive uma experiência terrena, numa existência mundana) atinge a transformação.
Sri Prem Baba desenvolve, ao longo de 4 capítulos, como é que o eu, apesar da sua individualidade, espontaneidade, liberdade, e responsabilidade, nasce no seio de uma família, para depois se conhecer através do seu reflexo no outro, até conseguir chegar a uma união num nós. existe a crença, que não é nova, de que ao preparar-se para nascer a alma escolhe a família, de modo a purificar o seu karma, e é esse processo de purificação, de encontro com a verdade, que permite alinharmo-nos com o nosso dharma, o propósito da nossa alma – a missão que assumimos, por assim dizer. É verdade que existem actualmente milhares de livros que versam a temática amorosa na área do desenvolvimento pessoal, mas para um leitor atento ou mais apaixonado é fácil constatar de imediato que o autor aqui não se limita a mastigar lugares-comuns ou banalidades. Diz-se usualmente que a vida é uma escola: em Amar e ser livre demonstra-se que os relacionamentos amorosos são a nossa universidade. Em traços gerais, as principais ideias do autor defendidas neste livro são que o sexo não pode ser um aspecto da nossa existência a suprimir ou a reprimir, até porque é através da sexualidade, especialmente das nossas fantasias mais recônditas, que é possível descobrir o que escondemos até de nós próprios e que pode fazer luz sobre os nossos medos e anseios, pois revelam «aspectos da consciência que ainda não foram devidamente integrados» (p. 52). Ouço muito recorrentemente as pessoas lamuriarem-se que estão sozinhas (por vezes há algumas semanas), quando outras pessoas (sim, é o meu caso) estão sozinhas há mais de 10 anos. Afirma o autor que, no geral, as pessoas entram nos relacionamentos como trajectos de fuga, «porque o contacto com a solidão significa a morte da nossa falsa identidade» (p. 75). E é através do relacionamento amoroso com outrem que se atinge a verdade interior, um conhecimento íntimo do nosso eu, pois é o outro que faz luz sobre as nossas sombras: «É preciso ter coragem para abandonar as defesas e permitir-se chegar perto do centro. É necessária ainda mais coragem para deixar o outro tocar no nosso centro, para se revelar. (…) sem revelação, não há intimidade. Sem intimidade, não há aprofundamento do amor.» (p. 108). Mas amar, amar verdadeiramente, implica libertar o outro, darmo-nos desinteressadamente, «quando conseguimos perdoar e agradecer e ver Deus em todos» (p. 63). É então que se alcança a purificação e o eu se completa.
Sri Prem Baba nasceu no Brasil, em São Paulo, e estudou Psicologia e Ioga. Tornou-se discípulo do mestre Sri Sachcha Baba Maharajji e fundou o movimento global Awaken Love. Vive entre o Brasil e a Índia onde ministra cursos e oferece palestras e retiros, como os de Satsang (que significa «encontro com a verdade»).

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Paulo Nóbrega Serra
Written by Paulo Nóbrega Serra
Sou doutorado em Literatura com a tese «O realismo mágico na obra de Lídia Jorge, João de Melo e Hélia Correia», defendida em Junho de 2013. Mestre em Literatura Comparada e Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, autor da obra O Realismo Mágico na Literatura Portuguesa: O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge e O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo, fruto da minha tese de mestrado. Tenho ainda três pequenas biografias publicadas na colecção Chamo-me: Agostinho da Silva, Eugénio de Andrade e D. Dinis. Colaboro com o suplemento Cultura.Sul e com o Postal do Algarve (distribuídos com o Expresso no Algarve e disponíveis online), e tenho publicado vários artigos e capítulos na área dos estudos literários. Trabalhei como professor do ensino público de 2003 a 2013 e ministrei formações. De Agosto de 2014 a Setembro de 2017, fui Docente do Instituto Camões em Gaborone na Universidade do Botsuana e na SADC, sendo o responsável pelo Departamento de Português da Universidade e ministrei cursos livres de língua portuguesa a adultos. Realizei um Mestrado em Didáctica do Português e das Línguas Clássicas e uma pós-graduação em Ensino Especial. Vivi entre 2017 e Janeiro de 2020 na cidade da Beira, Moçambique, onde coordenei o Centro Cultural Português, do Camões, dois Centros de Língua Portuguesa, nas Universidades da Beira e de Quelimane. Fui docente na Universidade Pedagógica da Beira, onde leccionava Didáctica do Português a futuros professores. Resido agora em Díli, onde trabalho como Perito de um Projecto de Cooperação e lecciono na UNTL. Ler é a minha vida e espero continuar a espalhar as chamas desta paixão entre os leitores amigos que por aqui passam.