Mais uma vez os títulos em português nem sempre fazem muito jus à obra da autora, normalmente considerada como literatura chick ou light. Neste caso particular o título até está muito próximo do original. A obra não está ao nível de Xeque ao Rei, que consegue um dos voltefaces mais fantásticos na ficção publicada nos últimos anos, mas que mais uma vez se perde com a tradução para o português (aconselho vivamente a ler a obra no original para ser verdadeiramente surpreendido no último capítulo), mas é um agradável regresso da autora e ao universo dessa obra. Reencontramos Roy Straitley, professor em St. Oswald, um colégio de rapazes, «um velho Rei solitário no tabuleiro de xadrez», um baluarte – ou dinossauro – de um método mais tradicional de aulas, além de ensinar justamente essa língua “morta” que é o latim há 34 anos. Enquanto St. Oswald ainda sofre do rescaldo dessa anterior tragédia, situação ocorrida anos antes e que resulta na morte de uma menina local, uma nova ameaça paira sobre a instituição que deveria ser um modelo de exemplaridade e excelência. Mais uma vez a autora não foge a temas mais actuais – como fez em O aroma das especiarias – e a pedofilia, o fanatismo religioso e a tortuosidade de certas mentes perversas são as forças que ameaçam o colégio.
Escrito em planos alternados, entre um ex-aluno (de identidade desconhecida mas indiciada desde o início…) que tem desígnios de vingança e segredos terríveis e o tom mais intimista do professor que narra as peripécias do colégio quando este é gerido por uma nova administração que traz perigos como PowerPoints, comunicados feitos exclusivamente por email e, pasme-se, um ensino misto de raparigas e rapazes. Mas não se julgue que Roy não é uma personagem simpática, é aliás uma figura bem divertida, com os seus próprios maus hábitos, o seu mau feitio, os alunos-mascote que também o respeitam e defendem, e os insights que nos chegam a partir da sua perspectiva são repletos de genuíno humor.
Leave a Comment