Nos anos 60, quando a Grã-Bretanha se tornou numa potência menor, quando ainda não existe a palavra adolescente, nem se entraram nos loucos tempos de liberdade sexual, quando ainda se vive segundo alguns convencionalismos burgueses, mas a masturbação já não é tabu nem pressupõe a crença de que causa cegueira, um jovem casal vive a sua noite de núpcias, passadas cerca de oito horas da cerimónia do casamento. O livro não o indica directamente, mas estamos em Julho de 1962, no final de um dia de verão, Florence e Edward esperam ansiosamente que lhes acabem de servir a refeição no quarto, para poderem ficar finalmente a sós. Mas o momento que Edward deseja com crescente excitação, é igualmente temido por Florence, que receia o instante em que terá de render o seu corpo ao noivo. As 128 páginas deste livro alternam entre o discorrer da sua “noite de núpcias” e o rememorar das suas vidas e relação com os pais, bem como dos últimos anos desde que se conheceram.
«Eles eram jovens, licenciados, ambos virgens naquela sua noite de núpcias, e viviam numa época em que uma conversa sobre dificuldades sexuais, que nunca é fácil, era simplesmente impossível.» (p. 7)
Pode ler-se que esta é «mais uma obra-prima de Ian McEwan – uma história de vidas transformadas por um gesto não feito ou uma palavra não dita», à semelhança da obra de Kazuo Ishiguro, cuja intriga gira muitas vezes em torno de um equívoco ou mal-entendido.
Um livro tão brilhante quanto incómodo, na forma como indicia que por vezes é só no fim do decurso de uma existência que verdadeiramente reconhecemos como uma só palavra ou cedência poderia ter resultado num desfecho de uma vida completamente diferente. E mais realizada.
O filme foi adaptado ao cinema e deverá estrear em Maio, com realização de Dominic Cooke, e Saoirse Ronan e Billy Howle nos principais papéis. Saoirse Ronan é a mesma jovem que despoleta toda a confusão de Expiação (2007 – outra das várias adaptações ao grande ecrã das obras do autor).
Este jovem casal contracenará ainda este ano noutro filme, A Gaivota, uma adaptação a partir da peça de Tchékhov.

print
Paulo Nóbrega Serra
Written by Paulo Nóbrega Serra
Sou doutorado em Literatura com a tese «O realismo mágico na obra de Lídia Jorge, João de Melo e Hélia Correia», defendida em Junho de 2013. Mestre em Literatura Comparada e Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, autor da obra O Realismo Mágico na Literatura Portuguesa: O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge e O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo, fruto da minha tese de mestrado. Tenho ainda três pequenas biografias publicadas na colecção Chamo-me: Agostinho da Silva, Eugénio de Andrade e D. Dinis. Colaboro com o suplemento Cultura.Sul e com o Postal do Algarve (distribuídos com o Expresso no Algarve e disponíveis online), e tenho publicado vários artigos e capítulos na área dos estudos literários. Trabalhei como professor do ensino público de 2003 a 2013 e ministrei formações. De Agosto de 2014 a Setembro de 2017, fui Docente do Instituto Camões em Gaborone na Universidade do Botsuana e na SADC, sendo o responsável pelo Departamento de Português da Universidade e ministrei cursos livres de língua portuguesa a adultos. Realizei um Mestrado em Didáctica do Português e das Línguas Clássicas e uma pós-graduação em Ensino Especial. Vivi entre 2017 e Janeiro de 2020 na cidade da Beira, Moçambique, onde coordenei o Centro Cultural Português, do Camões, dois Centros de Língua Portuguesa, nas Universidades da Beira e de Quelimane. Fui docente na Universidade Pedagógica da Beira, onde leccionava Didáctica do Português a futuros professores. Resido agora em Díli, onde trabalho como Perito de um Projecto de Cooperação e lecciono na UNTL. Ler é a minha vida e espero continuar a espalhar as chamas desta paixão entre os leitores amigos que por aqui passam.