Escrevi em tempos que A Construção do Vazio, o anterior romance de Patrícia Reis fechava um tríptico constituído por No Silêncio de Deus (2008), Por Este Mundo Acima (2011), todos publicados pela Dom Quixote. Ressalve-se que esta conclusão não é minha mas surgia no próprio paratexto do livro, provavelmente na sinopse da contracapa. Atrevo-me, sim, a afirmar que com o seu mais recente As Crianças Invisíveis, esse tríptico converte-se em quarteto (a minha suspeita parece confirmar-se na última linha, aliás palavra, do romance) e pode ainda continuar. Em A Construção do Vazio, ficámos a conhecer Sofia, uma mulher que se remete a um silêncio que nem uma terapia de sete anos consegue romper, vítima de maus tratos, violada pelo pai e agredida pela mãe, numa narrativa crua e dura. Em As Crianças Invisíveis, a história centra-se em torno de M., uma criança invisível, que vive «na sombra da vigilância do Estado» (p. 210), devolvida já por duas vezes pelas famílias adoptivas, sendo a razão apontada o facto de sofrer de uma condição cardíaca (o seu coração sente demais), se bem que chega também a ser maltratada. M. volta assim à Casa, uma instituição de acolhimento, onde convive com outras crianças igualmente rejeitadas com as suas próprias histórias, no seu único refúgio do mundo real. tendo a Casa, uma instituição de acolhimento, como único refúgio do mundo real, onde convive com outras crianças igualmente rejeitadas com as suas próprias histórias. Num registo literário notável, em que consegue uma proeza linguística e narrativa singular, de que nos aperceberemos ao longo do livro mas que infelizmente vem anunciada na sinopse do livro pelo que podem sempre optar por ignorá-la (como eu costumo fazer antes de terminar o livro ou estar já bastante adiantado na leitura), da mesma forma que podem não ler o próximo parágrafo isolado em que explico essa singularidade narrativa do romance:

Da mesma forma que M. e as outras crianças, dada a sua invisibilidade, uma vez que não passam de números e de processos, não têm nome, sendo designadas apenas pelas iniciais, também nunca se percebe qual o género de cada uma destas crianças.

(…)
Patrícia Reis é jornalista, cronista, editora da revista Egoista desde 2000, e estreou-se na ficção em 2004.

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Paulo Nóbrega Serra
Written by Paulo Nóbrega Serra
Obtive o grau de doutor em Literatura com a tese «O realismo mágico na obra de Lídia Jorge, João de Melo e Hélia Correia», em Junho de 2013. Mestre em Literatura Comparada e Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, autor da obra O Realismo Mágico na Literatura Portuguesa: O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge e O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo, fruto da minha tese de mestrado. Tenho ainda três pequenas biografias publicadas na colecção Chamo-me: Agostinho da Silva, Eugénio de Andrade e D. Dinis. Colaboro com o suplemento Cultura.Sul e com o Jornal Postal do Algarve, e tenho publicados alguns artigos na área dos estudos literários. Trabalhei como professor do ensino público cerca de 10 anos, ministrei formação. Fui Docente do Instituto Camões em Gaborone na Universidade do Botsuana e na SADC, sendo o responsável pelo Departamento de Português da Universidade e ministrei cursos livres de língua portuguesa a adultos. Realizei entretanto um Mestrado em Didáctica do Português e das Línguas Clássicas, frequento uma formação online de promoção da leitura e preparo-me para uma de revisão. Ler é a minha vida e espero continuar a espalhar as chamas desta paixão entre os leitores amigos que por aqui passam. Resido actualmente na cidade da Beira, Moçambique.