Um viajante terrestre, de seu nome Ai (o que soa como um grito de dor, mas também como Eu em inglês, «I») é enviado numa missão a Inverno, com o objectivo de convencer esse planeta a fazer parte do Ecuménio, uma civilização galáctica, assente na comunicação e na cooperação, uma liga de mundos cuja união é mais espiritual do que política. Inverno, uma terra inóspita, sem flores e sem aves, é um estranho mundo marginal, no limite do conhecido, perto do braço sul de Oríon, para lá do qual não existe qualquer outro mundo habitado, e com a particularidade de os seus habitantes serem andróginos: o seu corpo passa por ciclos hormonais em que eles serão ora homens ora mulheres, podendo ser pais de uma criança e mães de outras.
Como é próprio da ficção científica, nesta obra o que fala mais alto não é a capacidade de fantasiar da autora, e a sua genialidade efabulatória e narrativa, mas sim a forma como se parte da alteridade de um outro povo, num outro planeta, para reflectir sobre a própria humanidade e sobre a condição terrestre: «Os Gethenianos poderiam fazer os seus veículos andar mais depressa, mas não o fazem. Se lhes perguntam porquê, respondem «Para quê?», do mesmo modo que nós, Terrestres, quando nos perguntam por que razão temos veículos tão rápidos, respondemos «Porque não?» Gostos não se discutem. Os Terrestres tendem a sentir que precisam de avançar, de fazer progressos. Os nativos de Inverno, que vivem perpetuamente no Ano Um, sentem que o progresso é menos importante do que a presença.» (p. 60) Por isso, vivem como viviam há milénios, e «em trinta séculos, Inverno não alcançou o que a Terra, noutros tempos, alcançou em trinta décadas. Mas Inverno também não pagou o preço que a Terra veio a pagar.» (p. 100)
Os habitantes de Inverno aceitam este viajante apesar da dificuldade em acreditar que ele de facto chegou numa nave espacial e que o seu único propósito é aproximar Inverno de outros mundos, predispondo-os a comunicar com o resto da humanidade.
Apesar dos seus dons telepáticos, uma capacidade que os terrestres adquiriram com o passar dos milénios, será difícil a este viajante saber em quem pode confiar, até que se vê obrigado a fugir e encontra uma amizade incondicional na pessoa que menos espera.
A autora nasceu em Berkeley, Califórnia, em 1929. Publicou vinte e três romances de ficção científica e realista, mais de 100 contos e várias antologias de ensaios e de literatura infanto-juvenil. A Mão Esquerda das Trevas é das suas obras mais conhecidas, vencedora do Prémio Hugo e Prémio Nebula, a par dos seis volumes do ciclo Terramar (publicados pela Editorial Presença).

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Paulo Nóbrega Serra
Written by Paulo Nóbrega Serra
Obtive o grau de doutor em Literatura com a tese «O realismo mágico na obra de Lídia Jorge, João de Melo e Hélia Correia», em Junho de 2013. Mestre em Literatura Comparada e Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, autor da obra O Realismo Mágico na Literatura Portuguesa: O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge e O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo, fruto da minha tese de mestrado. Tenho ainda três pequenas biografias publicadas na colecção Chamo-me: Agostinho da Silva, Eugénio de Andrade e D. Dinis. Colaboro com o suplemento Cultura.Sul e com o Jornal Postal do Algarve, e tenho publicados alguns artigos na área dos estudos literários. Trabalhei como professor do ensino público cerca de 10 anos, ministrei formação. Fui Docente do Instituto Camões em Gaborone na Universidade do Botsuana e na SADC, sendo o responsável pelo Departamento de Português da Universidade e ministrei cursos livres de língua portuguesa a adultos. Realizei entretanto um Mestrado em Didáctica do Português e das Línguas Clássicas, frequento uma formação online de promoção da leitura e preparo-me para uma de revisão. Ler é a minha vida e espero continuar a espalhar as chamas desta paixão entre os leitores amigos que por aqui passam. Resido actualmente na cidade da Beira, Moçambique.