Guylain Vignolles tem 36 anos, é solteiro, e tem por única companhia uma série de peixes dourados, que se sucedem uns aos outros, e um velho que foi seu colega e mentor, até que as suas pernas foram amputadas na fábrica onde trabalham. Guylain Vignolles tem por fardo um nome cujo infeliz trocadilho significa algo como «fantoche feio», o que parece condizer com a sua profissão infeliz, que lhe cria repulsa, e que consiste em alimentar uma máquina, a que chama a Coisa. A função da Coisa é triturar, retalhar, rasgar, esmagar, esborrachar, até regurgitar uma massa cinzenta. Guylain Vignolles é um cidadão anódino, um funcionário discreto como uma sombra, não fosse naqueles breves momentos em que na viagem do comboio das 6h27 para Paris, a caminho do trabalho, lê em voz alta para os passageiros do comboio, que anseiam aquele instante, trechos soltos, fragmentos de páginas que sobrevivem a essa máquina devoradora de livros. Até que um dia a leitura de páginas soltas de livros que resgata ao ventre da Coisa é substituída pela leitura de 72 ficheiros de texto, guardados numa pen drive que encontra por acidente no assento do comboio, e que são nada menos do que entradas do diário de uma empregada de limpeza das casas de banho de um centro comercial.
Este pequeno livro, cheio de humor e poesia, é rico em personagens singulares, como o velho que procura reconstituir as suas pernas através da demanda dos 1300 exemplares de Jardins e Hortas de outrora, editados numa pasta de papel única; o guarda de fábrica que fala em versos alexandrinos; os idosos no lar que vibram a cada nova leitura e dão largas à imaginação para construir um contexto que envolva o pouco que a leitura revela; ou a jovem empregada de limpeza que escreve disfarçadamente nas pausas do seu trabalho, pois é sobejamente conhecido que é no mínimo desconcertante descobrir que alguém que se dedica a esfregar sanitas e os 14 717 azulejos que a rodeiam é também uma mulher letrada.
Este romance, publicado pelo Clube do Autor, foi considerado um fenómeno literário em França, foi vencedor de vários prémios, traduzido para 30 países e será adaptado ao cinema.
Uma óptima companhia para uma tarde de praia.

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Paulo Nóbrega Serra
Written by Paulo Nóbrega Serra
Sou doutorado em Literatura com a tese «O realismo mágico na obra de Lídia Jorge, João de Melo e Hélia Correia», defendida em Junho de 2013. Mestre em Literatura Comparada e Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, autor da obra O Realismo Mágico na Literatura Portuguesa: O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge e O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo, fruto da minha tese de mestrado. Tenho ainda três pequenas biografias publicadas na colecção Chamo-me: Agostinho da Silva, Eugénio de Andrade e D. Dinis. Colaboro com o suplemento Cultura.Sul e com o Postal do Algarve (distribuídos com o Expresso no Algarve e disponíveis online), e tenho publicado vários artigos e capítulos na área dos estudos literários. Trabalhei como professor do ensino público de 2003 a 2013 e ministrei formações. De Agosto de 2014 a Setembro de 2017, fui Docente do Instituto Camões em Gaborone na Universidade do Botsuana e na SADC, sendo o responsável pelo Departamento de Português da Universidade e ministrei cursos livres de língua portuguesa a adultos. Realizei um Mestrado em Didáctica do Português e das Línguas Clássicas e uma pós-graduação em Ensino Especial. Vivi entre 2017 e Janeiro de 2020 na cidade da Beira, Moçambique, onde coordenei o Centro Cultural Português, do Camões, dois Centros de Língua Portuguesa, nas Universidades da Beira e de Quelimane. Fui docente na Universidade Pedagógica da Beira, onde leccionava Didáctica do Português a futuros professores. Resido agora em Díli, onde trabalho como Perito de um Projecto de Cooperação e lecciono na UNTL. Ler é a minha vida e espero continuar a espalhar as chamas desta paixão entre os leitores amigos que por aqui passam.