Este é o último romance da autora publicado agora em Setembro, penso que já está à venda, pois recebi-o um pouco antes do lançamento.

É a segunda obra – exceptuando alguns contos de E se eu morrer antes de acordar – que leio da autora e continuo intrigado. Tenho li no grupo opiniões diversas mas, como é natural, só posso saber depois de provar, e não fiquei desiludido.

Mantém-se o tom de mistério, em que se desvelam factos aqui para camuflar outros ali, num certo jogo de luz e sombra, em que o cinema está sempre muito presente. Exceptuando aquilo que sabemos através das personagens, quase poderíamos estar a seguir tudo num ecrã. O livro abre justamente com a referência à cena de um filme: La Notti Bianche.

Uma jovem acorda num quarto estranho, mas vagamente familiar, e enquanto permanece mergulhada numa espécie de limbo vai absorvendo aquilo que os que a rodeiam, e que a tratam sempre como alguém que conhecem, que faz parte da casa, da sua “família, como forma de ganhar tempo e de ir recolectando os fragmentos de memória que lhe vão chegando. Assim nunca sabemos se Karen, nome pelo qual a chamam, sofre de alguma forma de amnésia, em virtude de um acidente ocorrido previamente, ou se simplesmente vive um sonho em que a sua vida parece ter-se tornado na vida de outra pessoa.

Enquanto Karen tenta integrar-se mais na pele dessa mulher que parece ter vestido ao acordar numa certa manhã, é peculiar a forma como Emily a trata, por vezes referindo-se a si na segunda pessoa, outras na terceira pessoa, mantendo a ambiguidade da sua identidade: «A Karen gosta de observar a cascata o ano inteiro.» (pág. 56).

Esta é outra das narrativas intrigantes da autora, com o seu universo muito próprio, mas gostei particularmente da forma como a memória de Karen (?) reside essencialmente nas mais pequenas coisas, como um cheiro, o toque, o nervoso de desejar pintar, mesmo que não reconheça de todo as pessoas com quem habita o quotidiano ou se lembre do que é, de facto, a sua vida.

Gradualmente, já não sabemos se ela é ou não Karen, se ela quer ou não perceber qual a sua verdadeira identidade: «Eu sabia isso a seu respeito. Sabia muitas coisas a seu respeito de que ninguém me tinha falado. Não era possível ter o mesmo rosto e o mesmo corpo e não partilhar um pouco a alma.» (pág. 86).

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Paulo Nóbrega Serra
Written by Paulo Nóbrega Serra
Obtive o grau de doutor em Literatura com a tese «O realismo mágico na obra de Lídia Jorge, João de Melo e Hélia Correia», em Junho de 2013. Mestre em Literatura Comparada e Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, autor da obra O Realismo Mágico na Literatura Portuguesa: O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge e O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo, fruto da minha tese de mestrado. Tenho ainda três pequenas biografias publicadas na colecção Chamo-me: Agostinho da Silva, Eugénio de Andrade e D. Dinis. Colaboro com o suplemento Cultura.Sul e com o Jornal Postal do Algarve, e tenho publicados alguns artigos na área dos estudos literários. Trabalhei como professor do ensino público cerca de 10 anos, ministrei formação. Fui Docente do Instituto Camões em Gaborone na Universidade do Botsuana e na SADC, sendo o responsável pelo Departamento de Português da Universidade e ministrei cursos livres de língua portuguesa a adultos. Realizei entretanto um Mestrado em Didáctica do Português e das Línguas Clássicas, frequento uma formação online de promoção da leitura e preparo-me para uma de revisão. Ler é a minha vida e espero continuar a espalhar as chamas desta paixão entre os leitores amigos que por aqui passam. Resido actualmente na cidade da Beira, Moçambique.