Porque afinal eu também leio de tudo um pouco, não vou discutir questões de literariedade, nem de cultura de massas ou de literatura popular, até porque a leitura só faz sentido enquanto prazer, abandono do mundo e busca de conhecimento ou sentido. Mas como amante e estudioso de literatura sei também que daqui a uns anos o que hoje se chama literatura um dia entrará certamente nos domínios da paraliteratura porque, afinal, a verdadeira literatura é aquela que, por muito que se leia, deixa sempre uma marca, um murro no estômago, uma sensação de desorientação e ao mesmo tempo de completude.
Deixo aqui um exemplo daquilo que por muito que os anos passem duvido (espero) que seja esquecido do que eu considero literatura, com passagens emblemáticas de um dos meus romances favoritos da literatura portuguesa: O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo (e pelo que verifiquei não está aqui apresentado ainda)

«Era no tempo em que as pedras tinham a configuração e o tamanho de ovos de dinossauro. Os esqueletos dos pequenos bichos, até então desaparecidos, eram desenterrados do seio dos búzios e da rocha dos fósseis. Tudo ali tinha o aspecto remoto e perpétuo da água, pois as próprias crateras vulcânicas, habitadas por ninhos de murganhos e salamandras, apresentavam as arestas limadas pelo torno das grandes chuvas, datando todas elas do tempo do patriarca Noé.»

«E, colada à parede das coisas, progrediu na sua humidade, atravessou mesmo a respiração das pedras e começou a devorar a paisagem. Estava a paisagem sendo enormemente devorada, quando essa tristeza chegou também à boca das pessoas e logo largou no seu hálito o cheiro branco da saliva. As mulheres começavam então a ler a Bíblia, tão velozes nos gestos como as abelhas em redor da última flor de laranjeira. Segundo elas, estava-se aproximando a hora da destruição do mundo, pois das suas magríssimas mãos cor-de-frio escorria já o suor pálido do Apocalipse. Quem de resto observasse o modo como o ventre lhes tremia de aflição não deixaria de suspeitar que as mulheres tinham herdado na carne não apenas o medo de morrer em breve, mas o próprio destino vulcânico da terra. Receberam-no aliás no primeiro momento da criação do mundo, quando a água da terra entrou para sempre nos dias do seu desespero.»
João de Melo, O Meu Mundo Não É Deste Reino, Publicações Dom Quixote, p. 12

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Paulo Nóbrega Serra
Written by Paulo Nóbrega Serra
Obtive o grau de doutor em Literatura com a tese «O realismo mágico na obra de Lídia Jorge, João de Melo e Hélia Correia», em Junho de 2013. Mestre em Literatura Comparada e Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, autor da obra O Realismo Mágico na Literatura Portuguesa: O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge e O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo, fruto da minha tese de mestrado. Tenho ainda três pequenas biografias publicadas na colecção Chamo-me: Agostinho da Silva, Eugénio de Andrade e D. Dinis. Colaboro com o suplemento Cultura.Sul e tenho publicados alguns artigos na área dos estudos literários. Trabalhei como professor do ensino público cerca de 10 anos, ministrei formação e sou actualmente Leitor do Instituto Camões em Gaborone na Universidade do Botsuana e na SADC, sendo o responsável pelo Departamento de Português da Universidade e onde ministro cursos livres de língua portuguesa a adultos. Realizei entretanto um Mestrado em Didáctica do Português e das Línguas Clássicas, frequento uma formação online de promoção da leitura e preparo-me para uma de revisão. Ler é a minha vida e espero continuar a espalhar as chamas desta paixão entre os leitores amigos que por aqui passam.