Stefan Zweig, O Mendel dos livros / A viagem ao passado
E porque se tem falado bastante de alfarrabistas ultimamente quero aqui apresentar este livro maravilhoso.
Como o título indica este pequeno livro contém duas histórias distintas (cerca de 40 páginas cada) se bem que têm, de alguma forma, como ponto comum os livros – a literatura e a escrita como salvação e como resposta – e a condenação da guerra.
Stefan Zweig nasce em Viena em 1881, privou com autores como Hermanh Hesse, Thomas Mann e James Joyce, e escreveu O Mendel dos livros em 1929. Mendel é um alfarrabista que se senta todos os dias no Café Gluck, um dos muitos cafés de Viena, e que já tem aliás uma mesa reservada para si, pois ele é um dos factores de atracção de clientela, devido à sua prodigiosa memória enciclopédica onde armazena todos os livros que passam pelas suas mãos e que lê como quem reza:
«lia como outros rezam, como os jogadores jogam e os bêbados atordoados fitam o vazio, lia com um recolhimento tal que qualquer outra pessoa que vi ler depois disso me pareceu sempre superficial e profana. Em Jakob Mende, naquele pequeno vendedor ambulante galiciano de livros usados, vi pela primeira vez, na minha juventude, o grande mistério da concentração absoluta que faz tanto o artista como o erudito, o verdadeiro sábio como o imbecil acabado, a tragédia feliz ou infeliz do verdadeiro possesso.» (pág. 15).
Contudo, e apesar de dotado desse fabuloso poder de concentração, em que a leitura era como uma experiência religiosa, a Mendel os livros não o entusiasmam pelo conteúdo mas pelo título, preço, formato, capa e as relações que estabelecem entre si. Essa sua concentração requer de tal forma um alheamento do mundo ao ponto de Mendel não se aperceber que, entretanto, deflagrara uma guerra e vê-se preso, um certo dia, segundo alegações de que colaborava com os inimigos da Áustria.
A viagem ao passado é a história de um amor tragicamente interrompido pela guerra e cuja história é revivida numa viagem de comboio:
«E, enquanto as rodas crepitantes corriam invisíveis para um futuro que cada um preenchia à sua maneira, o pensamento dos dois voava para o passado como para um sonho.» (pág. 46).
Em Frankfurt, um jovem de 23 anos, ambicioso e trabalhador dedicado, vê os seus esforços recompensados com uma promoção mas, por ironia do destino, aceitar a missão que lhe surge e que implica partir para o México, e que significa uma subida na sua carreira como nunca imaginou, implica também deixar a mulher que ele, compreende então subitamente, passou a amar. Uma ausência que era suposto durar dois anos dura nove anos pois precisamente quando está prestes a voltar Ludwig vê-se retido pelo deflagrar da guerra: «foi então que se deu a catástrofe que não só rasgou sem piedade o seu calendário, mas ceifou, impassível, milhões de seres e de destinos.» (pág. 65).
Quando finalmente regressa à Alemanha tenta reencontrar o seu amor com quem trocou, no início, uma constante correspondência, até que a guerra cortou qualquer possível ligação entre ambos. O reencontro acontece, mas resgatar o amor que uma vez partilharam pode não ser assim tão simples pois a guerra transformou o mundo e cada um daqueles que nele habitam.
Fica-nos no fim uma certeza, a de que os livros são uma hipótese de salvação e redenção: «os livros só se escrevem para, depois de deixarmos de respirar, unir os homens e defender-nos perante o inexorável reverso de toda a existência: a transitoriedade e o esquecimento.» (pág. 40).
Mais do que as tramas, que também são fortes em termos emotivos, o que mais gosto deste escritor é a sua elegância em escrever sensações intensas e tensões de choque com a sociedade que me dá um prazer enorme de apreciar a sua escrita enquanto leio. Não li nenhum destes dois contos ou novelas, mas anoto