De volta

Um Cisne Selvagem e outros contos, Michael Cunningham

Um daqueles livros que queremos começar com apenas um conto para ir alternando com outras leituras mas, subitamente, um conto sabe a pouco e queremos sempre ler mais. Desenha-se um sorriso no rosto logo desde as primeiras linhas com o tom irónico, humorístico, e a crítica sagaz que entretece uma certa análise perspicaz e prática do insólito dos contos de fadas com a observação cáustica e mordaz de alguns comportamentos da actualidade, das massas, do ser humano, que talvez não seja tão diferente nos dias de hoje do que quando vivia nas trevas da Idade Média… Cada conto não dura mais do que umas 5 a 10 páginas, mas é justamente na condensação que se pode ver a mestria e o domínio da narrativa. As histórias discorrem de forma ligeira, sem que nos identifiquemos propriamente com as personagens, talvez porque tal como nos contos de fadas sentimos sempre essa distância entre este nosso mundinho e o irreal das suas peripécias. Quando pensamos nestas personagens dotadas de fabulosa beleza ou outros atributos que tais de grande utilidade na vida, podemos perguntar-nos, no mais íntimo, «Quem não iria querer lixar estas pessoas?», como o próprio narrador indica logo ao abrir do livro. Da mesma forma que os heróis ou protagonistas não são propriamente movidos pelas mais nobres razões, até à data não há finais felizes, pelo contrário, são tristes e quase sempre solitários, nos antípodas do “e viveram felizes para sempre”.
A edição da Gradiva é absolutamente fantástica, com ilustrações de Yuko Shimizu de um carácter negro a condizer com o tom dos contos.
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Paulo Nóbrega Serra
Paulo Nóbrega Serra
Sou doutorado em Literatura com a tese «O realismo mágico na obra de Lídia Jorge, João de Melo e Hélia Correia», defendida em Junho de 2013. Mestre em Literatura Comparada e Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, autor da obra O Realismo Mágico na Literatura Portuguesa: O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge e O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo, fruto da minha tese de mestrado. Tenho ainda três pequenas biografias publicadas na colecção Chamo-me: Agostinho da Silva, Eugénio de Andrade e D. Dinis. Colaboro com o suplemento Cultura.Sul e com o Postal do Algarve (distribuídos com o Expresso no Algarve e disponíveis online), e tenho publicado vários artigos e capítulos na área dos estudos literários. Trabalhei como professor do ensino público de 2003 a 2013 e ministrei formações. De Agosto de 2014 a Setembro de 2017, fui Docente do Instituto Camões em Gaborone na Universidade do Botsuana e na SADC, sendo o responsável pelo Departamento de Português da Universidade e ministrei cursos livres de língua portuguesa a adultos. Realizei um Mestrado em Ensino do Português e das Línguas Clássicas e uma pós-graduação em Ensino Especial. Vivi entre 2017 e Janeiro de 2020 na cidade da Beira, Moçambique, onde coordenei o Centro Cultural Português, do Camões, dois Centros de Língua Portuguesa, nas Universidades da Beira e de Quelimane. Fui docente na Universidade Pedagógica da Beira, onde leccionava Didáctica do Português a futuros professores. Resido agora em Díli, onde trabalho como Agente de Cooperação e lecciono na UNTL disciplinas como Leitura Orientada e Didáctica da Literatura. Ler é a minha vida e espero continuar a espalhar as chamas desta paixão entre os leitores amigos que por aqui passam.

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