Setúbal, de Bruno Vieira Amaral
Setúbal, de Bruno Vieira Amaral, é o Livro n.º 3 da Coleção Portugal. O autor confirma-se aqui como dono de uma grande voz, que consegue com destreza unir o ensaio ao documento histórico, a prosa lírica à história. Sendo sabido que Bruno Vieira Amaral escreve por excelência sobre os territórios labirínticos e periféricos da margem sul, aqui desce um pouco mais, conduzindo-nos à “beleza agreste da serra” e ao “sereníssimo mar azul que se oferece à contemplação” (p. 15), nessa descida até à antecâmara do Céu que é Setúbal.
“Sem roteiro ou mapa, o viajante depende da intuição. Sem conhecimento prévio da história do lugar, dos acontecimentos ali ocorridos, (…) é obrigado a uma atenção superior, a apurar os sentidos, porque está sempre a uma esquina de se perder.” (p. 59)
E é assim, a perder-nos, sem um roteiro, sem um plano, que nos deleitamos nesta prosa lírica ensaística. Neste texto viajante não há propriamente um protagonista até porque não representa uma obra de ficção. E é difícil dizer que o narrador seja um cicerone, embora seja uma voz que nos conduz de forma pouco linear, mas com grande segurança, pelos meandros da história e da paisagem desta terra. Em diversas passagens, a voz narrativa assume-se como um “eu”, seja ou não passível de ser confundido com o próprio autor.
“Um dia, há muitos anos, arrastado não sei por que força, vim aqui parar, a esta praia, de onde se vê a serra e parte da cidade. Tinha levado uma velha máquina fotográfica do meu avô e tirei algumas fotografias. Banais, para não dizer pior, são o único registo dessa tarde de setembro” (p. 59).
Para fazer jus ao texto, ressaltam, ao longo das páginas, as belíssimas fotografias de Libório Manuel Silva, algumas a preto e branco, geralmente a cores, onde ressaltam a paisagem, ampla e universal, mas também, aqui e ali, alguns pormenores, como é o caso de um recanto da Igreja do Mosteiro de Jesus. Também acontece, por vezes, sobressair, nalgumas das fotografias, alguma figura solitária, que parece servir de escala à dimensão do cenário circundante. Este pormenor, da figura humana que por vezes surge quase invisível, muito discretamente no cenário fotografado, parece assim condizer, intencionalmente ou não, com as primeiras linhas deste texto:
“Cada cidade, cada lugar, além dos edifícios consagrados, os monumentos de visita obrigatória (…) as paisagens inspiradoras, as figuras ínclitas, algumas eternizadas no bronze e no mármore das estátuas ou homenageadas na toponímia, tem os seus mistérios, as suas zonas de sombra, os seus recantos obscuros, (…) os nomes quase esquecidos de homens e mulheres que marcaram gerações – um pequeno comerciante, um padre contestatário, uma professora severa, um bruxo – e cuja memória se desvaneceu no tempo.” (p. 7)
O autor-narrador destaca aqui a paisagem humana, a lembrar que os lugares e as cidades se fazem de paisagens que irrompem da natureza, mas compõe-se sobretudo das histórias de homens e mulheres que circularam por aquelas mesmas ruas, a fazer história. Um pouco ao jeito de Saramago, valoriza-se aqui a humanidade na forma das “massas anónimas” e das “grandes multidões”, do povo, dos pescadores, dos jornaleiros, até dos acamados e dos inevitáveis bandos de crianças a trotar pelas ruas em alvoroço e alegria contagiante – ou simplesmente enervante.
“Desses, é sabido, não reza a história, não por serem fracos ou não terem nome, mas porque a froça era bruta e os nomes vulgares. Tudo o que nas suas vidas era leve e ligeiro (…) desapareceu na voragem do tempo que tudo apaga, na roda trituradora de um quotidiano que tudo destrói.” (p. 9)
Mas de entre o anonimato, em mais do que uma passagem, a narrativa resgata algumas figuras tutelares que se destacam, nomeadamente a personagem de Sebastião da Gama, nascido em 1924, cuja breve existência foi ceifada em 1952, e Frei Agostinho da Cruz – ambos aliás autores de poemas aqui citados.
O autor:
Bruno Vieira Amaral nasceu em 1978. Colabora com a revista Ler, o Expresso e a Rádio Observador. Estreou-se com o ensaio Guia para 50 Personagens da Ficção Portuguesa, em 2013, editado pela Guerra e Paz. O seu primeiro romance, As Primeiras Coisas (Quetzal, 2013), foi distinguido com o Prémio PEN Clube Narrativa, Prémio Literário Fernando Namora, Prémio Time Out e Prémio Literário José Saramago, em 2015. Em 2016, foi nomeado uma das Dez Novas Vozes da Europa (Ten New Voices from Europe), escolha da plataforma Literature Across Frontiers.
O seu segundo romance, Hoje Estarás Comigo no Paraíso (Quetzal, 2017), recebeu o Prémio Tabula Rasa 2016-2017 na categoria de Ficção, e o segundo lugar do Prémio Oceanos 2018. Em 2018, foram reunidos os seus melhores textos dispersos no volume Manobras de Guerrilha e em 2020 publicou o livro de contos Uma Ida ao Motel, galardoado no ano seguinte com o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco / APE. Em 2021, saiu Integrado Marginal, biografia do escritor José Cardoso Pires. Um ano depois, reuniu em O Segundo Coração um conjunto de crónicas sobre o passado e a memória.
Lançou recentemente um novo romance, Toda a gente tem um plano (Quetzal, 2024).
Os direitos dos seus livros foram vendidos para vários países, incluindo Itália, Espanha, Brasil e Hungria.
Um autor que sigo com muito interesse. Dele li, o seu romance de estreia e a formidável biografia de José Cardoso Pires “Integrado Marginal”. Um grande e promissor jovem escritor.
Concordo inteiramente. Do romance à biografia passando pela crónica, é um autor que dá imenso gosto ler.