Se atentarmos apenas no título, naquele breve momento de incerteza e de expectativa em que ainda tudo pode acontecer, este livro publicado pela Temas & Debates pode surpreender. Mas essa surpresa dever-se-á certamente a não termos lido com atenção o subtítulo do livro, pois aí fica claro o que irá acontecer: O poder das histórias que formaram os povos e as civilizações. Apesar de parecer um livro denso e pesado, onde não faltam diversas imagens, inclusive a cores, este livro engana ainda no modo como agarra o leitor e o faz atravessar quatro milénios de história através de dezasseis textos que são fundamentais para compreender a história da Humanidade, a cultura quer ocidental quer oriental, bem como a história da própria literatura. O próprio início do livro, quando Martin Puchner constrói todo um preâmbulo em torno da chegada do Homem à Lua, pode deixar o leitor a recear que toda a obra será uma enorme divagação, mas perceber-se-á depois que o autor tem um plano e que o “enredo” fará sentido a seu tempo.
O autor não se debruça portanto no papel da escrita, como actividade criativa e intelectual, mas sobretudo na forma como a leitura nos influencia e, principalmente, como as histórias que se escrevem e se recontam têm moldado o ser humano, o leitor, o potencial escritor. O próprio autor percorre alguns dos cenários das histórias que nos conta, como a mítica Troia, Sicília, Caraíbas ou Istambul, para falar com Orhan Pamuk.
Toda a erudição e conhecimento do autor são vertidos numa linearidade narrativa própria de quem conta uma história, ensinando-nos como o romance nasceu no Japão no século XI com Murasaki, uma dama de corte; como Miguel Cervantes combateu piratas quer marítimos quer literários; como Goethe pensa no conceito de literatura universal e como O Manifesto Comunista foi um livro que ganhou peso igual ao de outros textos fundadores, como a Bíblia; ou de que modo foram criados os suportes e objectos da escrita, como o alfabeto, o papel, o livro e a prensa.
Martin Puchner é titular da cátedra Byron e Anita Wien de Literatura Inglesa e Comparada, na Universidade de Harvard. É autor de livros premiados, cujas temáticas vão da filosofia às artes, como o Harvard xMOOC (Massive Open Online Course), que tem transmitido o fascínio pela literatura a estudantes de todo o mundo. Vive em Cambridge, Massachusetts.

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Paulo Nóbrega Serra
Written by Paulo Nóbrega Serra
Sou doutorado em Literatura com a tese «O realismo mágico na obra de Lídia Jorge, João de Melo e Hélia Correia», defendida em Junho de 2013. Mestre em Literatura Comparada e Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, autor da obra O Realismo Mágico na Literatura Portuguesa: O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge e O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo, fruto da minha tese de mestrado. Tenho ainda três pequenas biografias publicadas na colecção Chamo-me: Agostinho da Silva, Eugénio de Andrade e D. Dinis. Colaboro com o suplemento Cultura.Sul e com o Jornal Postal do Algarve, e tenho publicados vários artigos na área dos estudos literários. Trabalhei como professor do ensino público cerca de 10 anos e ministrei formações. De Agosto de 2014 a Setembro de 2017, fui Docente do Instituto Camões em Gaborone na Universidade do Botsuana e na SADC, sendo o responsável pelo Departamento de Português da Universidade e ministrei cursos livres de língua portuguesa a adultos. Realizei um Mestrado em Didáctica do Português e das Línguas Clássicas e uma pós-graduação em Ensino Especial. Ler é a minha vida e espero continuar a espalhar as chamas desta paixão entre os leitores amigos que por aqui passam. Resido actualmente na cidade da Beira, Moçambique, onde coordeno um Centro Cultural Português, do Camões, dois Centros de Língua Portuguesa, nas Universidades da Beira e de Quelimane. Sou docente na Universidade Pedagógica da Beira, onde leciono Didáctica do Português a futuros professores.