Quando acabámos de ver o filme Yvone Kane, os meus alunos saíram com a sensação de que o filme de facto é baseado numa história verídica. Penso que é sempre assim, por muito avisados que estejamos de que aquele é o domínio do faz-de-conta, há sempre uma réstia de esperança de que a ficção explique a vida. Reforço a ideia de que é um óptimo filme e que, depois do poderoso A Costa dos Murmúrios, baseado claro no livro de Lídia Jorge, esta é outra história poderosa sobre África – Moçambique não é nomeado e o filme foi filmado em diversos locais – em que 3 mulheres se cruzam em tempos e histórias distintas. Não é tão claro assim que Rita (fabulosa Beatriz Batarda com aquela dor no olhar) tenha perdido a filha, mas é óbvio que procura uma parte de si, a sua identidade, ao querer remexer no passado.
É especialmente forte aquilo que Margarida Cardoso consegue fazer no filme – e que só resulta no cinema – que é a forma como a imagem, geralmente através do reflexo, está sempre presente, simbolizando a busca do eu. Muitas vezes vemos o reflexo da personagem ainda antes de a vermos a ela. Os reflexos no espelho estão muitas vezes presentes, no canto do ecrã, as imagens através da janela, a televisão ligada, os reflexos no vidro de uma montra, na água, etc., além das imagens das fotografias de arquivo, dos documentários,…
Mas há tanto a dizer: a presença dos brancos, muitas vezes indesejada; a confusão de línguas e pronúncias a marcar um território de povos diversos; mães que perdem filhos e mães que adoptam filhos perdidos por outras; o papel das mulheres como guerrilheiras na independência das ex-colónias.
A cena dos homens a atirar garrafas à piscina num acto estúpido de violência gratuita lembra o disparar dos dois militares sobre os flamingos em A Costa dos Murmúrios.
E, no fim, o acto de enterrar a piscina marca claramente o enterrar dos mortos e o enterrar do passado. Quem sabe, o fecho de um ciclo na obra da realizadora.

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Paulo Nóbrega Serra
Written by Paulo Nóbrega Serra
Sou doutorado em Literatura com a tese «O realismo mágico na obra de Lídia Jorge, João de Melo e Hélia Correia», defendida em Junho de 2013. Mestre em Literatura Comparada e Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, autor da obra O Realismo Mágico na Literatura Portuguesa: O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge e O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo, fruto da minha tese de mestrado. Tenho ainda três pequenas biografias publicadas na colecção Chamo-me: Agostinho da Silva, Eugénio de Andrade e D. Dinis. Colaboro com o suplemento Cultura.Sul e com o Jornal Postal do Algarve, e tenho publicados vários artigos na área dos estudos literários. Trabalhei como professor do ensino público cerca de 10 anos e ministrei formações. De Agosto de 2014 a Setembro de 2017, fui Docente do Instituto Camões em Gaborone na Universidade do Botsuana e na SADC, sendo o responsável pelo Departamento de Português da Universidade e ministrei cursos livres de língua portuguesa a adultos. Realizei um Mestrado em Didáctica do Português e das Línguas Clássicas e uma pós-graduação em Ensino Especial. Ler é a minha vida e espero continuar a espalhar as chamas desta paixão entre os leitores amigos que por aqui passam. Resido actualmente na cidade da Beira, Moçambique, onde coordeno um Centro Cultural Português, do Camões, dois Centros de Língua Portuguesa, nas Universidades da Beira e de Quelimane. Sou docente na Universidade Pedagógica da Beira, onde leciono Didáctica do Português a futuros professores.