Lillias Fraser, romance de Hélia Correia, ganhou o Prémio D. Dinis 2002 e o Prémio do PEN Clube Português 2001. Lillias Fraser é a protagonista deste romance homónimo, uma criança escocesa com o dom excepcional e mágico de prever a morte nas pessoas, pois quando as olha vê-as no momento da sua morte. Este poder vai salvá-la logo nas primeiras páginas do romance, pois assusta-se quando olha o pai e antecipa o seu assassinato. Claro que inicialmente a menina não compreende o que vê e aí há uma confusão ainda da personagem, por desconhecimento dos seus próprios dons, que se vão revelando e fortalecendo ao longo da narrativa, e depois multiplicam-se. As visões de Lillias abrem a percepção do leitor para um tempo em que os véus são demasiado finos, permitindo “pre-ver” o futuro da mesma forma que o mundo do invisível se sobrepõe por vezes ao mundo do sensível: «Acabaria por acostumar-se e quando, anos depois, em Portugal, viu abater-se uma cidade inteira, levantou-se em silêncio do enxergão, fechou a trouxa e foi dormir para o jardim, sem avisar ninguém daquilo que iria passar-se mais à frente, de manhã. Pensou que, se falasse, criaria um estado tal de confusão que os acidentes começariam a acontecer antes de o terramoto os provocar.» (p.8). Lillias Fraser escapa à batalha de Culloden e é por ver e seguir o fantasma da sua mãe, julgando-a viva, até ao castelo de Moy Hall, um sítio seguro, que a jovem permanece viva para nos contar a sua história. É o fantástico que conduz e salva Lillias ao longo da narrativa. É novamente graças ao seu dom, com o qual aprendeu a conviver, que se volta a salvar no fatídico ano de 1755. Lillias tem um brilho que atrai os homens e intimida as pessoas. A sua singularidade é perceptivel físicamente: «Tem os olhos doirados (…) Sinal de que houve bruxas na família.» (p. 43). Tem um brilho de sobrenaturalidade e mistério que irradia em seu redor por onde passa. Chega a ser motivo de mitos e rumores. Essa luz protege-a inclusive de feras como os lobos, mantendo-os à distância (p. 89).

O verbo ver predomina no romance, bem como a palavra visão ou olhos, por onde se apreende o real circundante mesmo quando Lillias duplica a sua visão, vendo este mundo e o outro que há-de vir. O dourado é a cor que reveste e irradia Lillias Fraser, o que reforça assim a sua graça enquanto receptáculo de um dom divino e não do Diabo, como a igreja advogava na época, tal como quando decidiu queimar parteiras e curandeiras acusando-as de bruxas, de forma a deter o poder de curar e ajudar o povo. Silenciada aquando do episódio da batalha de Culloden por uma mulher, a criança parece gravar esse comportamento para o resto da sua vida: «Fica calada, ouviste? Nunca fales. Não digas nada.» (p. 39). Lillias, no seu mutismo silencioso, em que muito pouco fala durante todo o romance, parece assim um símbolo da condição da mulher e da sua passagem silenciosa pela História.

Lillias Fraser vai vestindo máscaras e nomes ao longo do romance, como estratégia de sobrevivência, numa retórica de caranavalização. Temos inclusive um momento de travestismo, quando Lillias se faz passar por um homem, acompanhando Cilícia, a mulher maternal que a acolhe e protege, como se ela fosse um talismã: «Para que Lillias a acompanhasse, Cilícia fez-lhe um fato de rapaz e cortou-lhe o cabelo pelos ombros. “Passas por filho meu. Não abras boca.”» (p. 231).

A estrutura deste romance divide-se em três partes, que correspondem a cenários e tempos distintos: Escócia em 1746, Portugal em 1751 e em 1762, terminando num lugar incerto/utópico. Há um arco temporal de dezasseis anos em Lillias Fraser, livro-personagem que surgiu à autora no seguimento de um episódio biográfico narrado no livro, quando visita Culloden, cenário com que se inicia a história. O narrador confunde-se assim com o autor, e fala-nos sobre um passado histórico a partir do presente, recriando ou reconstituindo o passado numa narrativa que se assume como uma efabulação, onde decorrem ainda incursões do mágico. A voz do/a próprio/a narrador/a ocorre em diversos momentos: «Estive no campo de batalha de Culloden em 1999, a meio de Abril, um dia após as comemorações» (p. 13). Estas intrusões do narrador servem não só para nos despertar da ilusão de estarmos mergulhados numa história que ocorre noutro tempo como para nos tornar conscientes de que toda a História, tal como toda a ficção literária, é uma leitura a partir da perspectiva ou da moldura do real do presente, em que o leitor se insere. O narrador situa o leitor claramente num contexto pós-moderno, assentando-nos bem os pés na terra mesmo no início do romance, ao falar-nos da sua presença na cafetaria e no museu do memorial histórico, bem como quando refere a existência do site na Internet sobre Culloden (p. 17). Mas, da mesma forma que o historiador não pode visitar o passado para saber, em primeira mão, como este aconteceu, o narrador também não detém todas as peças do puzzle que ele próprio narra. O narrador enquanto instância tipicamente omnisciente chega mesmo a brincar com as suas próprias limitações, numa constante atestação de ignorância: «Se alguém ouviu gemer os soterrados e se benzeu ao despejar os caldeirões, isso não sei.» (p. 139).

E se por várias vezes relacionámos o dom sobrenatural de Lillias com o de Blimunda, que em Memorial do Convento era capaz de ver o interior das pessoas em jejum, Lillias ao chegar a terras portuguesas encontrar-se-á efectivamente com Blimunda, criando-se assim um inovador e aprazível jogo de ficções. A descrição que é feita de Blimunda reforça a sua aura de sobrenaturalidade, enquanto aparição que emana de um outro mundo/livro: «A mulher riu. Tinha um tão claro riso que Lillias julgou, por um momento, achar-se rodeada de crianças. No entanto, apesar do seu cabelo, ainda muito escuro, e do seu rosto, liso e moreno, onde brilhava a sugestão de emulsões orientais, vinha dela uma esplêndida velhice. Atravessara o tempo e convencera-o a separar-se dela para sempre. (p. 280). Lillias Fraser, por seu lado, fará também uma aparição especial no romance As Luzes de Leonor (2011), de Maria Teresa Horta. Neste último romance, o nome da personagem é Lilias Fraser, com um l, e parece ter surgido devido a um comentário casual de Hélia Correia com Maria Teresa Horta, quando se aperceberam que o tempo de ambas as narrativas era coincidente. Esta situação é extremamente curiosa e desmistifica um pouco o processo da escrita em que tudo tem de ter um significado oculto. Aparentemente, Hélia Correia terá pedido à poetisa e escritora Maria Teresa Horta para ser madrinha deste livro, As luzes de Leonor, e em resposta Maria Teresa Horta pediu-lhe Lillias Fraser de empréstimo.

print
Paulo Nóbrega Serra
Written by Paulo Nóbrega Serra
Obtive o grau de doutor em Literatura com a tese «O realismo mágico na obra de Lídia Jorge, João de Melo e Hélia Correia», em Junho de 2013. Mestre em Literatura Comparada e Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, autor da obra O Realismo Mágico na Literatura Portuguesa: O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge e O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo, fruto da minha tese de mestrado. Tenho ainda três pequenas biografias publicadas na colecção Chamo-me: Agostinho da Silva, Eugénio de Andrade e D. Dinis. Colaboro com o suplemento Cultura.Sul e tenho publicados alguns artigos na área dos estudos literários. Trabalhei como professor do ensino público cerca de 10 anos, ministrei formação e sou actualmente Leitor do Instituto Camões em Gaborone na Universidade do Botsuana e na SADC, sendo o responsável pelo Departamento de Português da Universidade e onde ministro cursos livres de língua portuguesa a adultos. Realizei entretanto um Mestrado em Didáctica do Português e das Línguas Clássicas, frequento uma formação online de promoção da leitura e preparo-me para uma de revisão. Ler é a minha vida e espero continuar a espalhar as chamas desta paixão entre os leitores amigos que por aqui passam.