Um singular caso insular: João de Melo

 

Depois de abordar nos seus primeiros dois livros, Memória de ver matar e morrer e Autópsia de um Mar em Ruínas, as suas memórias da guerra colonial, João de Melo, autor açoriano, nascido em S. Miguel, incorre no novo panorama literário português com o fabuloso romance O Meu Mundo não é deste Reino, eivado ainda de realismo mágico, à semelhança de O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge, retratando um mundo à parte que existe dentro deste “reino” português. No seu quarto romance, Gente Feliz com Lágrimas, que a par de O Meu Mundo não é deste Reino pode ser entendido como um díptico sobre os Açores, encontram-se referências explícitas a esse modo de vida das ilhas em passagens como: «o pasmo dum arquipélago que encalhara na mística religiosa do século XVI.»[1]. Contudo, se Gente Feliz com Lágrimas pode parecer, num primeiro impacto, uma mera continuação, em que se retoma esse povo do Rozário quando, num tempo mais actual, se atreve finalmente a partir além desse mar branco que envolve as ilhas, a ambiência mágica que antes perpassava na Ilha vai desaparecer, associada à própria partida do protagonista para Lisboa. A opressão retratada neste romance prende-se com um menino que vive num medo constante de um pai violento, materializando na paisagem da sua infância esses fantasmas, puramente internos, que o assombram: «Tudo irreal e oculto, como o próprio sol o era na sua esfera parda e oblíqua. Envolvendo as mães dos pêssegos e dos outros frutos, as matas de criptoméria eram presenças fulvas, cor de estanho, postas ali de propósito pelos antepassados só para captarem o tempo parado dos mortos. O ninho esdrúxulo do Grande Medo abria-se para receber o frio de meu corpo. Passavam então, como num desfile, por cima das copas das árvores, os mortos da família (…).» (p. 146). Este romance retrata o sentimento de exílio da diáspora do povo açoriano, mas também de todos os milhares de portugueses que se espalharam pelos vários continentes, levando em si o mundo em que cresceram, sem que dele se separem e sem que a ele possam voltar, pois nada permanece igual, engolido pela voracidade do correr do tempo. A força da vivência na Ilha, novamente maiusculada, permanece arreigada na memória dos açorianos que emigram para o Canadá, para a América e outros destinos além-mar, como transparece na seguinte passagem: «Todos estão aqui mas continuam nesse tempo da Ilha. Trouxeram-na, mantêm-na intacta dentro de si (…), mudaram de nome – mas persistem no tempo obsessivo das procissões e romarias, no pudor da mais sagrada nudez, no vício de dizer mal dos vizinhos (…). Tristes, enigmáticos, fingem a euforia dessa imensa importância de se estar vivo nos dias de Vancouver. Sonham com as vacas, as terras e os cavalos dos Açores e fazem planos para casas vistosas à beira da estrada que liga o Nordeste a Ponta Delgada.» (p. 353). Se Gente Feliz com Lágrimas é o embarque no cais e a ruptura com o mundo da infância, então O Meu Mundo Não É Deste Reino representa a terra natal como símbolo de uma infância mitificada mas irremediavelmente perdida, sendo esse o reino encantado que tanta matéria-prima fornece a este autor. Este romance, que é também o mais extenso do autor, foi depois adaptado pela RTP ao formato do pequeno ecrã, numa série televisiva.

João de Melo remete novamente para o Rozário na novela A Divina Miséria, publicada em 2009. Esse pequeno livro é uma versão largamente reescrita, que sofreu revisões sucessivas, desde um primeiro conto lançado num periódico, passando por um conto homónimo, «A Divina Miséria», integrado em Entre Pássaro e Anjo (1987), e «O Homem da Idade dos Corais», incluso nos contos de Bem-Aventuranças (1992). Esta novela surge como um projecto de um outro romance e o autor continua a insurgir-se graças a uma prodigiosa imaginação e a uma criatividade que se cristaliza numa sintaxe e num vocabulário quase barroco, luminoso na sua explosão e acumulação de som e imagens esplendorosas. Destaque-se a passagem que explica o título: «E nada pode haver de mais triste para quem morre do que ser enterrado à chuva, sentir o corpo misturar-se com a outra lama de que fomos feitos, a qual há-de ser sempre o lixo de Deus, a divina miséria da nossa criação» (p. 78). O autor continua assim a fazer uma ponte entre o quotidiano de dimensão mítica de um espaço insular que provoca uma ideia de universalidade, pois poderia estar a falar de outro sítio qualquer, permitindo a qualquer leitor além-fronteiras identificar-se com o que lê. O Rozário continua a ser essa pequena comunidade açoriana, oprimida pelo cerco atlântico, esse mar outrora branco como uma bruma de um tempo fora do mundo, onde se narram os acontecimentos semi-prodigiosos que se seguiram à morte do padre Governo. O título joga com um espírito lúdico de intertextualidade, em que se remete, numa cumplicidade irónica, para o título de Dante Alighieri, A Divina Comédia. Esta novela ao regressar ao universo romanesco do autor explicita certos aspectos de O Meu Mundo Não É Deste Reino. Neste compasso de espera próprio do Purgatório, tendo sido o Inferno o que se leu no primeiro romance do tríptico, ocorrem ainda outros acontecimentos insólitos. Se os primeiros eventos são sempre referidos com a ressalva da comparação ou do rumor de uma população demasiado imaginativa, como quando «a mansão paroquial ameaçava alar-se no ar e depois desabar sobre as nossas cabeças» (p. 18), existem outros prodígios que o narrador jura ter testemunhado: «(…) e não, não é fantasia minha -, vimos que choviam no silêncio peixes cor de chumbo: arenques, tainhas e maramóis. A seguir, choveram revoadas de pétalas de rosas brancas e amarelas. Depois, hortênsias de todas as cores e tons. As ruas apareceram juncadas como nos dias de procissão. E caranguejos cegos, de uma extraordinária cor lunar, começaram a inundar aos poucos as valetas.» (pp. 34-35). Um falso Paraíso chega depois, quando a libertação da Ilha ocorre com a chegada dos marines americanos, que serão sarcasticamente descritos como anjos na terra, com os «olhos azuis desses meninos musculados, todos eles muito bem-parecidos, com um ar misto de anjos marciais e guerreiros amotinados, porque eram a negação da inocência e da infância que tinham vivido lá na terra que os armara para dominar o planeta» (p. 101). Invadem o Rozário, nos seus submarinos, prontos a colonizar essa ilha, a exportar doenças e outras moléstias, para depois ofertarem, em compensação, drogas experimentais. O insólito balança assim num desacordo hesitante entre o maravilhoso que volta, novamente, a desvanecer-se conforme essa diatribe de dimensão política ganha força, mas onde se sente ainda a voz crítica que denuncia imposições e totalitarismos.

[1] João de Melo, Gente Feliz com Lágrimas, 3.ª ed., Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1989, p. 42.

print
Paulo Nóbrega Serra
Written by Paulo Nóbrega Serra
Obtive o grau de doutor em Literatura com a tese «O realismo mágico na obra de Lídia Jorge, João de Melo e Hélia Correia», em Junho de 2013. Mestre em Literatura Comparada e Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, autor da obra O Realismo Mágico na Literatura Portuguesa: O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge e O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo, fruto da minha tese de mestrado. Tenho ainda três pequenas biografias publicadas na colecção Chamo-me: Agostinho da Silva, Eugénio de Andrade e D. Dinis. Colaboro com o suplemento Cultura.Sul e com o Jornal Postal do Algarve, e tenho publicados alguns artigos na área dos estudos literários. Trabalhei como professor do ensino público cerca de 10 anos, ministrei formação. Fui Docente do Instituto Camões em Gaborone na Universidade do Botsuana e na SADC, sendo o responsável pelo Departamento de Português da Universidade e ministrei cursos livres de língua portuguesa a adultos. Realizei entretanto um Mestrado em Didáctica do Português e das Línguas Clássicas, frequento uma formação online de promoção da leitura e preparo-me para uma de revisão. Ler é a minha vida e espero continuar a espalhar as chamas desta paixão entre os leitores amigos que por aqui passam. Resido actualmente na cidade da Beira, Moçambique.