texto publicado no Cultura.Sul de 13 de Outubro de 2017:

Kate Atkinson, nascida em York (Grã-Bretanha) em 1951, conseguiu a proeza de ganhar o Prémio Costa pela terceira vez com esta obra que é um complemento, não uma sequela, segundo palavras da própria autora, de Vida após Vida, o seu romance anterior, igualmente premiado com o Costa e publicado pela Relógio d’Água.
A autora teve ainda duas outras obras publicadas em Portugal. Retratos de Família, o seu romance de estreia e vencedor do Costa, com o título original de Behind the Scenes at the Museum, data de 1995 e foi publicado uns anos depois pela Planeta Editora, que também traduziu e publicou Croquete Humano.
Vida após Vida, publicado pela Relógio d’Água em 2014, assenta numa ideia original. Na contracapa do livro pode ler-se: «Em 1910, durante uma tempestade de neve em Inglaterra, um bebé nasce e morre sem que tenha tempo de respirar. Em 1910, durante uma tempestade de neve em Inglaterra, o mesmo bebé nasce e vive para poder contar a aventura.». Ou, dito de outra forma, para poder contar a História. A história de Vida após Vida, como o título indica, é uma sucessão de desfechos alternativos, mas se ao início esses desfechos alternativos parecem cingir-se àquilo que aconteceria se Ursula sobrevivesse às várias mortes por que passa, depois começam a estar mais amplamente relacionados com o próprio livre arbítrio da personagem e das decisões que toma. A vida de Ursula desdobra-se numa míriade de vidas possíveis, até que, no fecho do primeiro capítulo, localizado temporalmente em Novembro de 1930, quando Ursula entra num café e dispara sobre Hitler, se pressente que a ideia central ao romance é não só a eterna questão de “E se eu tivesse decidido assim ou optado por ali” mas sim a de “E se fosse possível prever o futuro e reescrever a História?”. Nas palavras da própria heroína: «Uma vez ouvi alguém dizer que a presciência era uma coisa maravilhosa, que com ela não haveria história.» (pág. 428).

Piloto de guerra

Um Deus em Ruínas, publicado em Setembro de 2017, a autora centra-se agora em Teddy, Edward Todd, o irmão mais novo de Ursula e piloto do Comando de Bombardeiros. Ursula Todd, numa das suas várias vidas, é uma presença constante, até porque é a irmã preferida, e provavelmente a amizade mais sólida, de Teddy. A sua presença é contudo quase sempre indirecta, quase nfantasmática, através de à partes que são relembrados por Teddy.
W. G. Sebald, em História Natural da Destruição, referia que há muito pouca literatura sobre a guerra aérea que devastou a Alemanha. Pois neste romance Kate Atkinson centra-se justamente no Blitz de Londres e na campanha de bombardeamentos estratégicos contra a Alemanha. Há uma aturada pesquisa histórica, que aliás perpassa na escrita, nunca de forma enfadonha, nas descrições pormenorizadas dos voos e dos pormenores associados à guerra, sendo que os episódios narrados são sempre baseados em factos reais. Existem momentos em que podemos mesmo visualizar vividamente as cenas.
Mas este não é apenas um romance sobre a Segunda Guerra Mundial. É sobretudo um romance sobre a vida e as várias guerras que combatemos ao longo da vida, como a doença, a velhice, as relações familiares, ou tão simplesmente o esquecimento.
Não é um romance em que se entre de ânimo leve. Levamos tempo a entrar na história, até porque temos de nos adaptar aos constantes saltos narrativos e ao desajuste cronológico na narração. Afinal, se tivéssemos de arriscar um motivo pelo qual este livro arrecadou o prémio Costa seria pelo tratamento do tempo. Não pelas prolepses ou analepses, que são constantes, nem ao facto de os capítulos, todos eles datados com um ano (entre 1925 e 2012), serem desordenados cronologicamente. Mas sim porque em poucas linhas os planos temporais enovelam-se e quase perdemos o fio à meada, não fosse a perícia com que a autora tece o fio do tempo.
Usar a metáfora de que ler este romance é como nos perdermos num labirinto seria incorrecto. Aqui andamos numa sala de espelhos, em que o passado faz luz sobre o futuro e o futuro se projecta no passado, à medida que um homem, num século que não é mais o seu, se apercebe de como a vida vai ruíndo apesar da sua bondade e da sua integridade.
São características marcadas na escrita da autora o forte sentido de humor, capaz de arrancar pequenas gargalhadas, muitas vezes através de pequenos à partes que pontuam a narrativa, e uma prosa elegante, polvilhada de humor e ironia. Um humor tipicamente britânico, que aliás caracteriza fortemente Fox Corner, o espaço da juventude de Teddy e de Ursula, que convida a um certo distanciamento e olhar crítico sobre a realidade.
Escreve a própria autora, na sua nota pessoal, que se lhe perguntassem do que trata este romance ela responderia «que é um romance sobre a ficção literária (e a necessidade de imaginar aquilo que não podemos conhecer) e sobre a Queda (do Homem)» (p. 387), sendo que proliferam no romance referências literárias alusivas a isso mesmo (há constantes citações e alusões literárias no romance, indicadas em notas finais). Este Deus em ruínas de que fala o título é também a fragilidade da condição humana, mesmo quando o Homem se arroga a ser Deus, é uma Europa que se perdeu e um passado irrecuperável, simbolizado pelo idílio de Fox Corner, a morada da inocência de Teddy: «A guerra fora um abismo aterrador e não havia forma de regressar ao outro lado, às vidas que haviam tido antes, àqueles que tinham sido antes da guerra. Isto valia tanto para eles como para o resto da Europa, pobre e em ruínas.» (p. 75)

E o que existe para lá da guerra?

Mas não se pense que este romance trata apenas de guerra, pois findas as batalhas aéreas travadas por Teddy e vencida a guerra pelos Aliados, uma boa parte dos capítulos posteriores a esse período tratam da difícil relação de Teddy com a sua filha Viola, bem como da relação desta com os seus filhos, Sun Edward Todd (Sunny) e Moon Roberta (Bertie). É curioso como os netos de Teddy, este pólo Sol-Lua, parecem configurar uma sobrevivência da personagem do avô e da sua irmã Ursula. No caso de Sunny através do nome de Edward Todd que este herda do avô e no caso de Bertie porque é ela quem tem a relação mais forte com Teddy, e muitas vezes surgem reminiscências dos seus à partes de que Teddy nos dá conta conforme os recorda, tal como antes acontecia com Ursula, enquanto esta era viva.
Existe a certa altura surpresa por parte de alguém em relação à pacatez da vida de Teddy, tendo ele sido um sobrevivente e um herói medalhado da guerra. Mas encontraremos depois uma explicação possível: «Tinha feito uma promessa, uma promessa secreta ao mundo, nas suas longas vigílias noturnas: se sobrevivesse, no grande futuro que depois viria, tentaria ser amável e levar uma vida digna e tranquila. Como Cândido, cultivaria o seu jardim. Discretamente. E seria essa a sua redenção. Ainda que só pudesse acrescentar uma pena ao prato da balança, seria a sua forma de restituição por ter sido poupado. No fim de tudo, quando chegasse a altura de ajustar contas, talvez essa pena lhe pudesse valer.» (p. 337). Esta pena é símbolo (e não será por acaso que aparece como motivo da belíssima e enigmática capa do livro) da queda que se segue ao voo, pois se as aves são uma constante, a começar pelo canto da cotovia e a terminar nos pombos caçados pelos falcões, a pena simboliza aqui a efemeridade, a queda fatal após a ascensão, as vidas que se perderam no prato da balança da guerra e da injustiça humana.
Correndo o risco de desvendar o final ou a grande surpresa, este livro joga ainda de forma muito original com a questão da ficção, da literatura como fantasia e criação de um real alternativo, de um mundo possível. A autora defende-se, na nota final, de que não tenta escrever pósmodernices. E se pensarmos na realidade da guerra que serve de fundo a esta história em torno da vida de Teddy percebemos que é de facto quase inverosímil acreditar neste piloto como um felizardo que sobreviveu a todas as suas missões, quando na verdade os soldados eram usados como carne para canhão e morriam: «Todos eles na flor da idade.» (p. 339). Tinham também um conhecimento deturpado do efeito das suas campanhas: «Cinquenta e cinco mil, quinhentos e setenta e três mortos no Comando de bombardeiros. Sete milhões de alemães mortos, dos quais quinhentos mil mortos pela campanha de bombardeamento dos Aliados. No total, a Segunda Guerra Mundial custou a vida a sessenta milhões, incluindo os onze milhões assassinados no Holocausto.» (p. 374)

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Paulo Nóbrega Serra
Written by Paulo Nóbrega Serra
Obtive o grau de doutor em Literatura com a tese «O realismo mágico na obra de Lídia Jorge, João de Melo e Hélia Correia», em Junho de 2013. Mestre em Literatura Comparada e Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, autor da obra O Realismo Mágico na Literatura Portuguesa: O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge e O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo, fruto da minha tese de mestrado. Tenho ainda três pequenas biografias publicadas na colecção Chamo-me: Agostinho da Silva, Eugénio de Andrade e D. Dinis. Colaboro com o suplemento Cultura.Sul e com o Jornal Postal do Algarve, e tenho publicados alguns artigos na área dos estudos literários. Trabalhei como professor do ensino público cerca de 10 anos, ministrei formação. Fui Docente do Instituto Camões em Gaborone na Universidade do Botsuana e na SADC, sendo o responsável pelo Departamento de Português da Universidade e ministrei cursos livres de língua portuguesa a adultos. Realizei entretanto um Mestrado em Didáctica do Português e das Línguas Clássicas, frequento uma formação online de promoção da leitura e preparo-me para uma de revisão. Ler é a minha vida e espero continuar a espalhar as chamas desta paixão entre os leitores amigos que por aqui passam. Resido actualmente na cidade da Beira, Moçambique.