Este pequeno livro é mais uma pérola deste grande autor, prémio Nobel em 1929, cuja obra tenho estado a ler ultimamente (o que me leva a querer reler os que lera entretanto). Seguir-se-ão certamente Os Buddenbrook, o seu primeiro romance cuja escrita iniciou aos 21 anos de idade.

Esta é também uma obra bastante autobiográfica e como que um libelo ou manifesto da sua escrita. Nas próprias palavras do autor, citadas na capa: «a narrativa que é talvez ainda hoje, entre tudo o que escrevi, a mais próxima do meu coração.».

O livro atravessa parcialmente a vida de Tonio Kröger, detendo-se nos episódios que mais contribuíram para a formação da sua personalidade, numa rememoração selectiva. Logo no início encontramos um Tonio adolescente que está, a uma primeira leitura, apaixonado pelo colega Hans Hansen, numa paixão que parece aliás naturalmente justificada pelo facto de este outro jovem ser um modelo de beleza e perfeição: «Era extraordinariamente bonito e bem constituído, largo de ombros e estreito de ancas, com olhos despertos de um azul-aço e de olhar agudo e penetrante.» (pág. 9). Adorado pelos professores, pelos colegas, em suma por todos aqueles que com ele se cruza, Hans é assim amado mas também invejado por Tonio, que é, fisica e intelectualmente, o seu oposto. E é quando o jovem Tonio se detém nas suas razões, justificadas ou não, para esta inveja em relação ao amigo percebemos então que, tal como a homossexualidade aparentemente patente na obra A morte em Veneza, esta questão de “amor ao mesmo” ou “amor grego” ganha outros contornos, em que no fundo Tonio gostaria de ser como o seu amado, pelo seu porte atlético, pela sua facilidade perante a vida, pela sua leveza, enquanto Tonio, além do próprio nome já de si exótico, da própria aparência física (filho de uma mãe sul-americana) se move com mais langor e encara a vida com uma certa melancolia, mergulhado nos seus livros. No segundo capítulo, a paixão de Tonio já não é Hans mas outra deusa de aspecto igualmente louro e trigueiro, a loira Ingeborg Holm, pois, como se declara claramente no final do romance, o seu «mais profundo e mais secreto amor pertence aos loiros de olhos azuis, a esses seres límpidos e vivos, felizes, que são amados, que são normais.» (pág. 118).

A narrativa prossegue, com um pendor mais metafísico, outras vezes quase alegórico, e acompanhamos o percurso de Tonio de jovem amante da literatura a escritor: «Seguiu o caminho que tinha de seguir, um pouco desleixadamente e de forma irregular, assobiando, com a cabeça inclinada para o lado e olhando o longe, e quando errava, tal acontecia porque para muitos não há um único caminho certo.» (pág. 35).

Este é um relato do que significa amar-se a literatura, e viver em torno da literatura, tendo Thomas Mann criado uma personagem que veio a ser amado pela juventude intelectual do século XX, que se revia nesta estranheza e neste sentimento de não-pertença de Tonio em relação ao mundo, que analisa com rigor mas com distanciamento frio, de um ser que parece vogar sem laços humanos. Destaque-se o episódio em que Tonio revisita a sua cidade-natal apenas para encontrar a sua casa transformada numa biblioteca pública e acaba a ser interrogado por um polícia que lhe pede os seus papéis, mas Tonio não tem forma de comprovar a sua identidade a não ser pelas provas do seu próximo livro, onde figura o seu romance.

E se me perguntarem o que faz de uma obra literatura posso referir que são passagens como esta:

«Ao jantar, fora vizinho de Tonio Kröger e com movimentos tímidos e modestos tinha comido espantosas quantidades de omeleta de lavagante.» (pág. 87).

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Paulo Nóbrega Serra
Written by Paulo Nóbrega Serra
Obtive o grau de doutor em Literatura com a tese «O realismo mágico na obra de Lídia Jorge, João de Melo e Hélia Correia», em Junho de 2013. Mestre em Literatura Comparada e Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, autor da obra O Realismo Mágico na Literatura Portuguesa: O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge e O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo, fruto da minha tese de mestrado. Tenho ainda três pequenas biografias publicadas na colecção Chamo-me: Agostinho da Silva, Eugénio de Andrade e D. Dinis. Colaboro com o suplemento Cultura.Sul e com o Jornal Postal do Algarve, e tenho publicados alguns artigos na área dos estudos literários. Trabalhei como professor do ensino público cerca de 10 anos, ministrei formação. Fui Docente do Instituto Camões em Gaborone na Universidade do Botsuana e na SADC, sendo o responsável pelo Departamento de Português da Universidade e ministrei cursos livres de língua portuguesa a adultos. Realizei entretanto um Mestrado em Didáctica do Português e das Línguas Clássicas, frequento uma formação online de promoção da leitura e preparo-me para uma de revisão. Ler é a minha vida e espero continuar a espalhar as chamas desta paixão entre os leitores amigos que por aqui passam. Resido actualmente na cidade da Beira, Moçambique.