O romance Stoner, do professor universitário John Williams, foi publicado em 1965 mas parece ter ficado esquecido nas prateleiras desde então até que no ano de 2013 a livraria britânica Waterstones elegeu esta obra, em detrimento de outras muito mais recentes publicadas nesse mesmo ano, como o melhor livro do ano. Foi dos livros que mais me prendeu e mais prazer me deu ler nos últimos meses.  Tem aliás sido referenciado por diversos autores como uma obra-prima e um romance formidável.

Numa era de imediatismo, de popularidade, de conquistas fáceis, de facilitismo, o romance Stoner é uma obra lenta, densa, belamente escrita, que nos apanha desde os primeiros parágrafos, apesar de não deixarmos de sentir como a vida da personagem parece enfadonha e triste.

Os primeiros dois parágrafos constituem uma espécie de obituário da personagem principal:

«William Stoner entrou para a Universidade do Missouri em 1910, aos dezanove anos. Oito anos depois, no auge da Primeira Guerra Mundial, doutorou-se e aceitou um cargo de docente nessa mesma universidade, onde lecionou até morrer, em 1956. Não passou do grau de assistente e poucos alunos se lembravam de Stoner com nitidez» (pág. 7).

Depois desta introdução desanimadora, em que o leitor pode pensar que já tudo está dito sobre a história deste homem, o autor envolve-nos a partir das linhas seguintes na verdadeira história de vida de William Stoner. Um fio que vai tecendo lentamente, com uma escrita elegante e cuidada, sem grandes embelezamentos além da arte da simplicidade.

Este jovem é filho de camponeses. Nasceu em 1891 numa pequena quinta no centro do Missouri. Apesar de nunca ter sequer alimentado essa esperança, os pais informam-no certo dia que abriu uma escola agrária na Universidade de Columbia e que ele irá fazer o curso durante os próximos quatro anos. A proposta do pai é que ele arranje trabalho para poder pagar o quarto e a alimentação, pois vivem com dificuldades. Tanto que a primeira preocupação de William é perguntar ao pai se ele se consegue aguentar sozinho com a quinta, ao que o pai lhe responde numa pequena tirada que termina mais ou menos desta forma:

«- (…) Vais prá universidade este outono. A tua mãe e eu cá nos arranjamos.»

Foi o discurso mais longo que William ouvira da boca do pai. (pág. 10)».

É desta forma luminosa mas contida que a narrativa vai fluindo… A vida de William sofre então essa profunda mudança, incorrendo num curso que não foi escolhido por si. Mas é também durante esse curso que Stoner encontra a sua vocação. Além das cadeiras do curso da escola agrária, William é obrigado como todos os alunos da universidade a frequentar igualmente um semestre de Literatura Inglesa, disciplina lecionada pelo professor Archer Sloane. Este indivíduo de meia-idade parecia «encarar a sua missão de docente com aparente desdém e desprezo, como se percebesse que entre o seu conhecimento e aquilo que podia dizer existia um fosso tão profundo que nem valia a pena tentar transpô-lo.» (pág. 13). A maioria dos alunos teme-o ou antipatiza com ele.

Numa aula, o professor interpela William, a propósito de um soneto de Shakespeare, perguntando-lhe qual o significado do poema. Nesse momento percebemos que William, que não é propriamente descrito como um aluno brilhante, parece ficar sem palavras:

«William Stoner percebeu que estava a suster a respiração há vários instantes. Soltou o ar suavemente dos pulmões, com a noção exacerbada do movimento da roupa no seu corpo enquanto expirava. Desviou os olhos de Sloane para a sala em redor. A luz entrava enviesada pelas janelas e pousava nos rostos dos colegas, de tal maneira que parecia irradiar de dentro deles e, em contraste com a penumbra» (pág. 16).

A descrição continua desta forma, sem nunca termos acesso aos pensamentos do jovem estudante, pois é particularmente por uma caracterização indireta de todo o cenário envolvente que subtilmente se começa a indiciar que aquela busca desesperada do rapaz pelas palavras certas que podem explicar por si só o significado de um soneto com mais de trezentos anos é, na verdade, o prenúncio de uma revelação, de uma transformação interior que moldará o destino da personagem, um momento cuja profundidade lembra o instantâneo literário em que Proust mergulha a madalena no chá e do qual brotam os seus sete livros de memórias. William parece tomar finalmente consciência de si próprio enquanto ser humano e os últimos dois anos de curso parecem-lhe subitamente um sonho, como se tivesse passado por eles de forma autómata, com a mente completamente desligada do corpo. Mas essa mesma verdade encontrada por William, que não é a do sentido do poema mas sim a da sua vida e destino, só lhe será revelada depois pelo professor:

«-Ainda não percebeu, Sr. Stoner? – perguntou Sloane. – Ainda não descobriu essa verdade sobre si próprio, sobre a sua natureza? O senhor vai ser professor. (…)

– Como é que sabe? Como é que pode ter a certeza?

– É amor, Sr. Stoner – disse Sloane alegremente. – O senhor está enamorado. É tão simples quanto isso.» (pág. 23).

E é a descoberta desse enamoramento pela literatura que guia o livro. Stoner é basicamente um livro, tendo aliás sido considerado uma narrativa autobiográfica, sobre o amor pela literatura e pelos livros bem como o amor mundano pelo outro. Em última instância, é um caminho solitário, apesar de ser o amor a bússola que orienta os seus passos, como se sente logo depois de terminar o curso, quando um fosso se cria entre ele e os pais, embora estes tenham aceitado a sua decisão de prosseguir os estudos em letras. Depois do mestrado e do doutoramento, William torna-se leitor a tempo inteiro na universidade. A partir daí, prossegue a sua carreira, de forma modesta, quase apagada. Da mesma forma que vive a sua vida no geral de forma estóica, pois ao casar-se com a bela e enigmática Edith, essa relação rapidamente se revela uma profunda desilusão. Edith é aliás uma das figuras mais crípticas do romance e apesar do seu comportamento neurótico e rancoroso para com o marido, William parece ser sempre demasiado passivo até para a odiar. A própria filha do casal ficará marcada por esta relação disfuncional.

Stoner encontrará de forma inesperada o verdadeiro amor quando se envolve com uma colega mais nova, Katherine, que, aliás, se revelará ser uma académica mais brilhante do que ele mas este caso amoroso irá alimentar guerras internas no seu meio académico. Nunca a voltará a ver, mesmo quando ela publica um livro, que lhe é dedicado. Stoner pode até ser considerada a história de alguém que falhou a vida, talvez um livro mais destinado a académicos ou amantes da literatura, mas não deixa de ser a história de alguém que encontrou algum sentido na vida e toca profundamente no coração de qualquer leitor.

 

 

 

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Paulo Nóbrega Serra
Written by Paulo Nóbrega Serra
Obtive o grau de doutor em Literatura com a tese «O realismo mágico na obra de Lídia Jorge, João de Melo e Hélia Correia», em Junho de 2013. Mestre em Literatura Comparada e Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, autor da obra O Realismo Mágico na Literatura Portuguesa: O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge e O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo, fruto da minha tese de mestrado. Tenho ainda três pequenas biografias publicadas na colecção Chamo-me: Agostinho da Silva, Eugénio de Andrade e D. Dinis. Colaboro com o suplemento Cultura.Sul e tenho publicados alguns artigos na área dos estudos literários. Trabalhei como professor do ensino público cerca de 10 anos, ministrei formação e sou actualmente Leitor do Instituto Camões em Gaborone na Universidade do Botsuana e na SADC, sendo o responsável pelo Departamento de Português da Universidade e onde ministro cursos livres de língua portuguesa a adultos. Realizei entretanto um Mestrado em Didáctica do Português e das Línguas Clássicas, frequento uma formação online de promoção da leitura e preparo-me para uma de revisão. Ler é a minha vida e espero continuar a espalhar as chamas desta paixão entre os leitores amigos que por aqui passam.