O separar das águas (1981) foi a primeira novela de Hélia Correia (as suas primeiras três novelas foram publicadas na obra abaixo ilustrada pela Relógio d’Água, em 2015) recebida pela crítica como «invulgarmente bem construída, entre o burlesco e o dramático», com «linguagem sóbria, segura» e cuja concisão narrativa revela «qualidade literária».
Sem qualquer indicação temporal específica no corpo do texto, podemos situar o início da narrativa no ano de 1917, pois proliferam referências históricas nacionais, nomeadamente a aparição de Fátima, e estende-se por dois anos incertos em que a sucessão de eventos políticos referidos mais parecem condensar mais de metade do século XX. A acção localiza-se num lugar atópico, intitulado Vilerma – certamente uma contracção de Vila Erma –, nome que convém a um espaço perdido e isolado, marcado pelo obscurantismo e pela crendice popular: «Como todas as vilas recolhidas, afastadas das grandes capitais, as notícias chegavam a Vilerma tardiamente e muito acrescentadas. A Revolução Russa e o milagre de Fátima vieram a um tempo, entrelaçados, como formas visíveis do tremendo combate de Deus e do Diabo, que arrastava consigo a perdição do mundo.» (pág. 13).
Proliferam as personagens mas ao longo da narrativa percebemos que a personagem central é o soldado José Sebastião que passa a tenente e a senhor presidente, pois os títulos alternam-se sem grande distinção. Prefiguram-se nesta novela questões centrais às narrativas da autora que se lhe seguirão: a luta de classes; relações conflituosas entre homem e mulher; um certo realismo mágico, termo que era comummente aplicado na altura da publicação das primeiras novelas da autora pela crítica, mas que se definiria melhor como um ambiente fantástico; um realismo ainda próximo do neorealismo.
O casamento entre José Sebastião e Maria do Patrocínio, oriundos de classes sociais distintas, surge como uma forma de ascensão social e não causa o escândalo próprio a uma certa aristocracia de épocas passadas, permitindo ao soldado assumir inclusivamente o papel de liderança antes ocupado pelo sogro, coronel Pimenta de Albuquerque, como se um título militar fosse transmissível com o dote. Esta ascensão social de José Sebastião, a quem o sogro chama por «guardador de porcos» e acusa de não conhecer o próprio avô, acarreta o próprio renegar das suas origens e, por conseguinte, da sua família com quem corta qualquer contacto depois do casamento. O casamento é assim reduzido a uma convenção social hipócrita e que tem, quase sempre, desfechos trágicos (como veremos depois em O número dos vivos) em particular a loucura das mulheres, situação clínica que se afigurava uma boa desculpa para a trancar nalgum quarto esquecido ou relegar para um lugar distante, de modo a prosseguir a vida com uma amante publicamente reconhecida ou um segundo casamento. As mulheres são representadas quase sempre de forma débil, beata ou demente: «Ao lado do enorme coronel, a esposa parecia uma pomba assustada. Punha no chão os olhos cor de cinza e ninguém conseguiu, na sua curta vida, arrancar-lhe da boca mais do que um «boa tarde» fatigado e confuso.» (pág. 23). A autora procurará, desta forma, romper com certos convencionalismos da tradição clássica literária, ao reforçá-los, se bem que de forma paródica. Na localidade de Vilerma o poder reparte-se em duas polaridades, o militar e o clerical, enquanto que o padre teme já os operários, que acabarão por se instalar definitivamente com a instalação de fábricas de conserva e que significam justamente o progresso do local. A ameaça pendente ao longo da narrativa será, justamente, o comunismo, referido logo no início, e que leva a pensar no ambiente fantástico que se respira na novela como uma exalação dessa ameaça invisível provinda das terras de leste: «- Às vezes dá-me a ideia – suspirou o tenente – de que eles não existem. De que alguém os inventa, se mascara, para nos encher de medo». (pág. 82). Reina ainda em Vilerma um certo misticismo primitivo arreigado entre o temor imposto pelo cristianismo, da mesma forma que na escrita da autora se delineia já uma tendência para o fantasmático ou irreal, a magia (temos uma bruxa), a loucura ou as ruínas a invocar o romantismo, e um certo humor e ironia, com frases que invocam um estilo próprio de Agustina.

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Paulo Nóbrega Serra
Written by Paulo Nóbrega Serra
Obtive o grau de doutor em Literatura com a tese «O realismo mágico na obra de Lídia Jorge, João de Melo e Hélia Correia», em Junho de 2013. Mestre em Literatura Comparada e Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, autor da obra O Realismo Mágico na Literatura Portuguesa: O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge e O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo, fruto da minha tese de mestrado. Tenho ainda três pequenas biografias publicadas na colecção Chamo-me: Agostinho da Silva, Eugénio de Andrade e D. Dinis. Colaboro com o suplemento Cultura.Sul e tenho publicados alguns artigos na área dos estudos literários. Trabalhei como professor do ensino público cerca de 10 anos, ministrei formação e sou actualmente Leitor do Instituto Camões em Gaborone na Universidade do Botsuana e na SADC, sendo o responsável pelo Departamento de Português da Universidade e onde ministro cursos livres de língua portuguesa a adultos. Realizei entretanto um Mestrado em Didáctica do Português e das Línguas Clássicas, frequento uma formação online de promoção da leitura e preparo-me para uma de revisão. Ler é a minha vida e espero continuar a espalhar as chamas desta paixão entre os leitores amigos que por aqui passam.