«Chamo-me Sofia. Tenho onze anos e meio, e quando for grande quero ser inútil.»
Esta frase supostamente inocente valeu a esta jovem uma risada geral da turma, a fúria da professora e um encontro com a Directora da escola e os pais na semana seguinte, além de um sermão do pai. Nesse intervalo de tempo, Sofia resolve pôr por palavras escritas o porquê de semelhante desejo. Esta é a história de como o ingénuo desejo de uma criança inocente pode parecer ofensivo aos adultos e de como estes precisam somente de colocar a sua vida em perspectiva através dos olhos e da chamada de atenção de uma criança. Escrito em frases curtas, como convém a uma criança, profundas, cheias de sabedoria e maravilhamento (note-se o nome da personagem, que vem do grego para «sabedoria»), o diário de Sofia conta-nos como a sua vida mudou quando os pais se mudam da cidade para uma pequena aldeia junto do mar, no fim do Sol-posto. Mas esta decisão não trouxe afinal nenhuma da tranquilidade prometida, pois o pai apesar de trabalhar a partir de casa, como profissional liberal, vive sob pressão e impõe essa lógica a uma criança que ganhou os céus infinitos e a praia. Por isso, o pai não lhe perdoa o seu desinteresse pela matemática, e ao gosto de Sofia pela arte contrapõe a necessidade de escolher uma profissão utilitarista num mundo regido pelo consumismo e o imediatismo: «O Papá ouviu a palavra Kandinsky e suspirou. Ouviu guitarra e suspirou. Ouviu minhocas e suspirou ainda mais. Os suspiros não eram os de um poeta diante de uma paisagem, eram de cansaço. Entendi que tinha sido convidada para um monólogo e não para um diálogo.» (p. 33)
As cativantes personagens com que Sofia e os amigos se deparam na praia, como o homem que reúne paus, uma bióloga que estuda estrelas-do-mar, os violinistas celtas, a velhinha que segue a luz nos seus quadros, são «boa gente, mas não servem para esta sociedade em que te calhou viver» (p. 69). E assim esta menina, com um olhar avisado onde a inocência e a ironia se conjugam, vai ensinar aos pais a redescobrirem como são as coisas inúteis que mais sentido fazem.
Este livrinho delicioso, da autoria de Alex Nogués, nascido em Barcelona em 1976, com ilustrações de Bea Enriquez e tradução de Maria João Moreno, é um dos primeiros títulos da colecção AKINARRA, da editora AKIARA, uma colecção de breves romances ilustrados, com capa dura, para meninos e meninas a partir dos 9 anos. Com sede em Barcelona, esta editora foi criada por Inês Castel-Branco, portuguesa que vive em Espanha há quase 20 anos, e voltaremos ainda a esta editora numa próxima semana.

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Paulo Nóbrega Serra
Written by Paulo Nóbrega Serra
Sou doutorado em Literatura com a tese «O realismo mágico na obra de Lídia Jorge, João de Melo e Hélia Correia», defendida em Junho de 2013. Mestre em Literatura Comparada e Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, autor da obra O Realismo Mágico na Literatura Portuguesa: O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge e O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo, fruto da minha tese de mestrado. Tenho ainda três pequenas biografias publicadas na colecção Chamo-me: Agostinho da Silva, Eugénio de Andrade e D. Dinis. Colaboro com o suplemento Cultura.Sul e com o Jornal Postal do Algarve, e tenho publicados vários artigos na área dos estudos literários. Trabalhei como professor do ensino público cerca de 10 anos e ministrei formações. De Agosto de 2014 a Setembro de 2017, fui Docente do Instituto Camões em Gaborone na Universidade do Botsuana e na SADC, sendo o responsável pelo Departamento de Português da Universidade e ministrei cursos livres de língua portuguesa a adultos. Realizei um Mestrado em Didáctica do Português e das Línguas Clássicas e uma pós-graduação em Ensino Especial. Ler é a minha vida e espero continuar a espalhar as chamas desta paixão entre os leitores amigos que por aqui passam. Resido actualmente na cidade da Beira, Moçambique, onde coordeno um Centro Cultural Português, do Camões, dois Centros de Língua Portuguesa, nas Universidades da Beira e de Quelimane. Sou docente na Universidade Pedagógica da Beira, onde leciono Didáctica do Português a futuros professores.