Nuno Júdice é um autor contemporâneo e conterrâneo (para os leitores algarvios) bastante conhecido pela sua poesia, pela qual tem sido particularmente apreciado e premiado. Na linha de outros poetas do século XX, a tradição e a antiguidade clássica renascem em força na sua obra poética. Ganhou, este ano, o XXII Prémio Reina Sofia de Poesia Ibero-Americana. É ainda ensaísta, escritor e professor associado na Universidade Nova de Lisboa.

Este poeta algarvio nasceu na Mexilhoeira Grande, em 1949, e formou-se em Filologia Românica pela Universidade Clássica de Lisboa. É reconhecido e publicado internacionalmente, em mais de onze línguas. Além disso, Nuno Júdice dirige ainda um dos últimos baluartes da crítica literária a resistir nos dias que correm, a revista Colóquio Letras. Dedica-se ainda ao estudo e à escrita de ensaios sobre teoria da literatura e literatura portuguesa, como o pequeno ABC da crítica, que explica de forma simples e atual essa ciência que alguns consideram uma inutilidade que é a de pensar ou escrever sobre literatura.

Mas, como habitualmente, interessa-nos particularmente explorar a sua obra ficcional. Os seus livros em prosa são pequenas novelas que se leem facilmente, mesmo que a sua escrita seja elaborada, escorreita, raramente complexa, mesmo quando incorre numa filosofia que serve apenas para debater algum dilema pessoal.

Existem algumas marcas que unem estas obras aparentemente tão díspares. Por Todos os Séculos (1999), é um livro particularmente interessante, onde se preconizam esses aspetos que vigoram, regra geral, na ficção deste poeta. O livro é contado na primeira pessoa, como aliás todos os outros aqui abordados, sendo esse “eu”, aliás, um professor ou um investigador: alguém que deambula pelo mundo (dos livros) em busca de algum esclarecimento que, no fim, acaba por afetar a sua própria vida pessoal. O “eu lírico” parece assim manter essa sua voz na primeira pessoa, como se fosse a sua “persona” quem nos fala diretamente. O próprio autor já admitiu, em entrevista, ter “falta de imaginação”, o que o leva a rememorar na escrita aspetos da sua vida pessoal.

O tom da prosa é intimista, invocando o leitor para dentro de um abraço caloroso na história que se conta, quase sempre uma memória, como páginas de um diário pessoal, onde se recorda algum momento em particular da sua vida. Por outro lado, a história por muito atual que seja, como acontece em A Implosão (2013), acaba sempre por cruzar dois planos diferentes, o do presente a partir do qual se projeta a voz do eu e o de um passado relembrado ou até mesmo (como a madalena de Proust permite) reencontrado. Exemplificando, no livro Por Todos os Séculos, o autor/narrador, essa figura que parece confundir-se numa só, assiste à enchente nos meios de comunicação social das reportagens que exploram o escândalo do presidente norte-americano Bill Clinton e do seu caso com Monica Lewinski, enquanto traça curiosas e ironicamente divertidas analogias com o caso de uma jovem que, em tempos idos da Idade Média se deixou enganar por um padre, que se aproveitou sexualmente dela alegando que, ao deitarem-se lado a lado completamente nus, ela poderia mais facilmente atingir a santidade.

Em A Implosão traça-se outro quadro bipartido, como forma de abordar um tema tão pertinentemente atual como a crise económica que se vivia (ou vive?) nos países europeus do sul, como Portugal e Grécia, enquanto dois homens ligeiramente conhecidos relembram os tempos da sua juventude, quando se vivia a Revolução de Abril. O livro foi escrito em 2011, aquando da situação vivida na Grécia e da “bomba” em Chipre, sendo essa bomba o dinheiro, na sua forma mais virtual e abstrata, capaz, no entanto, de lançar estilhaços em toda a volta e atingir as mais diversas vidas. Esta novela tem assim uma clara dimensão política, onde se procura retratar o quadro geral vivido na Europa, ainda que se refira, especificamente, o espaço lisboeta. A ação decorre durante um velório, frente a um caixão, onde nunca se percebe muito bem qual o corpo que lá possa estar, se bem que possa ser identificado como a mulher que tão insistentemente relembram. O livro constrói-se assim em torno de um diálogo entre essas duas personagens, sendo um deles referido como suspeito de ser informador da PIDE. Estes dois homens conheciam-se apenas de vista, dos ambientes de café próprios dos tempos da revolução, onde se teciam conspirações e se trocavam as novidades, quer políticas quer culturais.

Noutras novelas, que aqui destacamos, de entre a cerca de dezena e meia que Nuno Júdice escreveu, é claramente notória a rememoração não só de um passado pessoal (e talvez veridicamente vivenciado) mas, principalmente, a forma como a imaginação e a memória livresca de uma biblioteca pessoal se podem sobrepor à realidade empírica do mundo exterior que nos circunda. Os Passos da Cruz (2009) fala-nos de um investigador ou estudante de literatura, que parte pelo país até uma aldeia para os lados de Coruche, que dá pelo nome de Lamarosa, onde, em 1670, terá vivido uma mulher, Antónia Margarida de Castelo Branco, que se viu obrigada a casar com Brás Teles, um homem explorador e agressivo que a violentou para o resto da sua vida, enquanto o marido a procurava matar de dor e sofrimento para mais depressa se apoderar da sua fortuna. Ora a vida de quem viveu há mais de trezentos anos é, afinal, assunto para «ratos de biblioteca» como reconhece o próprio narrador que se pode identificar como um jovem no final da adolescência. Mas é no caminho para essa terra que esse mesmo jovem aparentemente se perde e é guiado por um homem que mais parece a reencarnação desse fidalgo marialva em tempos modernos e que conduz o jovem até sua casa, onde o apresenta à sua mulher, Antónia Margarida. Cria-se assim uma história aparentemente surreal ou fantástica, em que o jovem não sabe se está a ser manipulado, se se abriu uma brecha no tempo ou se a História tem mesmo, tão simplesmente, tendência a repetir-se.

O Complexo de Sagitário (2011) inicia com um episódio quase grotesco de uma matança do porco, testemunhada por um jovem leitor, envergonhadamente agarrado a um livro forrado com papel grosso, para disfarçar a sua leitura da polémica obra, noutros tempos proibida, A Filosofia na Alcova, do Marquês de Sade. Este jovem vai viver obcecado com a visão de uma mulher com as mãos sujas de sangue, por ajudar na matança, numa cena que tem algo de ritual iniciático feminino, na aura de mistério em que fica envolta ou no modo como é filtrada aos olhos e à rememoração subjetiva do narrador. O tema do amor e o erotismo, bem como as alusões à cultura clássica, como os homens transformados em porcos por Circe, devido à sua estupidez amorosa, ou ao tecer incessante de Penélope (analogia da escrita?) são igualmente recorrentes e distinguem um autor que tem tanto de culto como de atual.

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Paulo Nóbrega Serra
Written by Paulo Nóbrega Serra
Obtive o grau de doutor em Literatura com a tese «O realismo mágico na obra de Lídia Jorge, João de Melo e Hélia Correia», em Junho de 2013. Mestre em Literatura Comparada e Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, autor da obra O Realismo Mágico na Literatura Portuguesa: O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge e O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo, fruto da minha tese de mestrado. Tenho ainda três pequenas biografias publicadas na colecção Chamo-me: Agostinho da Silva, Eugénio de Andrade e D. Dinis. Colaboro com o suplemento Cultura.Sul e tenho publicados alguns artigos na área dos estudos literários. Trabalhei como professor do ensino público cerca de 10 anos, ministrei formação e sou actualmente Leitor do Instituto Camões em Gaborone na Universidade do Botsuana e na SADC, sendo o responsável pelo Departamento de Português da Universidade e onde ministro cursos livres de língua portuguesa a adultos. Realizei entretanto um Mestrado em Didáctica do Português e das Línguas Clássicas, frequento uma formação online de promoção da leitura e preparo-me para uma de revisão. Ler é a minha vida e espero continuar a espalhar as chamas desta paixão entre os leitores amigos que por aqui passam.