Entre a memória e a recriação fictícia da memória, passando pela história, pela arte e pela literatura, este livro marca a estreia na ficção desta autora nascida na Argentina. Correspondente do The New York Times em Buenos Aires, onde nasceu, colabora da revista Artforum e de um suplemento, tendo orientado cursos para artistas e ateliers de crítica de arte, co-editora de uma colecção sobre pintura argentina, e autora de um livro de ensaios sobre a arte argentina, María Gainza parece levar-nos pelas galerias da sua memória pessoal como quem nos conduz numa visita guiada a um museu: «na arte tudo se joga na distância que vai de algo que nos parece bonito a algo que nos cativa, e (…) as variáveis que modificam essa percepção podem e costumam ser as mais insignificantes.» (p. 11)
Conforme anunciado na contra-capa do livro: «Como num museu – lugar que, aliás, frequenta muitas vezes à maneira de uma sala de primeiros-socorros -, a sua vida tem obviamente obras-primas, mas também pequenos quadros escondidos em corredores escuros e estreitos. E, no entanto, todos eles importam.»
Um quadro, como uma memória, pode sempre revelar-se como um portal com duas saídas, uma para a história oficial e outra que se esconde sob a tela e apela directamente aos nossos sentidos. Como escreve a certa altura: «as coisas deste mundo parecem-me ambíguas, admitindo pelo menos duas leituras» (p. 24). Até porque como se interroga a autora: «também não sei porque estou a contar isto agora, mas suponho que é sempre assim: escrevemos uma coisa para contar outra» (p. 18)
A procura da identidade na arte é tão forte que a autora chega mesmo a encontrar um quadro que é a cópia de si própria na infância:
«Éramos ela e eu. A fascinação de me reconhecer foi a chave, não vou negar: aquela rapariga provocava-me indescritíveis excessos de ternura, queria correr a abraçá-la. Sei que as razões pelas quais me aproximei daquela pintura não passariam num exame da academia, essa casa dos espíritos sublimes onde o maior medo é fugir, mas não são afinal todas as boas obras pequenos espelhos? Não é verdade que uma boa obra transforma a pergunta «o que está a acontecer» em «o que me está a acontecer»? Não é toda a teoria também autobiografia?» (p. 128)
Entre a memória pessoal e o ensaio, com laivos de subtil perspicácia sobre a vida, a autora conta-nos na primeira pessoa como a sua vida se foi construíndo em torno da arte, enquanto nos fala da família ou de uma amiga de infância, ao mesmo tempo que reconta a vida de pintores como El Greco, Courbet ou Fujita, detendo-se particularmente nos momentos mais anedóticos ou inverosímeis, como que a desafiar a capacidade da realidade suplantar a ficção.
Este livro é ainda a prova de que a literatura latino-americana continua prolífica em ímpeto e em autores.

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Paulo Nóbrega Serra
Written by Paulo Nóbrega Serra
Obtive o grau de doutor em Literatura com a tese «O realismo mágico na obra de Lídia Jorge, João de Melo e Hélia Correia», em Junho de 2013. Mestre em Literatura Comparada e Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, autor da obra O Realismo Mágico na Literatura Portuguesa: O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge e O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo, fruto da minha tese de mestrado. Tenho ainda três pequenas biografias publicadas na colecção Chamo-me: Agostinho da Silva, Eugénio de Andrade e D. Dinis. Colaboro com o suplemento Cultura.Sul e com o Jornal Postal do Algarve, e tenho publicados alguns artigos na área dos estudos literários. Trabalhei como professor do ensino público cerca de 10 anos, ministrei formação. Fui Docente do Instituto Camões em Gaborone na Universidade do Botsuana e na SADC, sendo o responsável pelo Departamento de Português da Universidade e ministrei cursos livres de língua portuguesa a adultos. Realizei entretanto um Mestrado em Didáctica do Português e das Línguas Clássicas, frequento uma formação online de promoção da leitura e preparo-me para uma de revisão. Ler é a minha vida e espero continuar a espalhar as chamas desta paixão entre os leitores amigos que por aqui passam. Resido actualmente na cidade da Beira, Moçambique.