Orhan Pamuk nasceu na Turquia em 1952 e em 2006 foi laureado com o Prémio Nobel da Literatura. Estudou Arquitectura e formou-se em Jornalismo, mas nunca exerceu. De todas as obras deste autor, publicado pela Editorial Presença, esta é possivelmente uma das suas obras de ficção mais bem conseguidas. Deixemos Istambul – Memórias de uma cidade no seu campo próprio da não-ficção ou guia de viagens, como livro de histórias e memórias dessa capital que faz a ponte entre o Ocidente e o Oriente.
A Mulher de Cabelo Ruivo é um romance dividido em três partes. Se na primeira parte o leitor pensa estar perante um romance de descoberta e crescimento, bem como de enamoramento por uma estranha mulher de beleza madura e exótica, na segunda parte deparamo-nos com a idade adulta de um homem que se afasta entretanto dos seus sonhos de juventude e paixões de adolescente, para finalmente na terceira parte termos o relato na voz própria dessa mulher por quem o nosso protagonista em tempos se apaixonou, logo à primeira vista, como em qualquer história de amor que se preze. Mas é também na segunda parte que os indícios, bastante subtis, da verdadeira intriga se começam a tornar mais insistentes, conforme o leitor começa a tentar perceber afinal por onde nos leva a trama, quando esta tão subitamente se desvia do que parecia ser o seu tema central, conforme a vida do próprio jovem herói sofre uma reviravolta e o seu percurso tergiversa por outras vias. O narrador assim o anuncia logo na abertura do romance: «O meu desejo era ser escritor. Mas, depois dos acontecimentos que vou narrar, estudei engenharia geológica e tornei-me empreiteiro da construção civil. Mesmo assim, o facto de eu estar a contar a história agora não deveria levar os leitores a pensar que ela acabou, que pus tudo para trás das costas. Quanto mais recordo, mais fundo caio dentro dela. Talvez vós me sigais também, atraídos pelo enigma de pais e filhos.» (p. 13)
Cem é filho de um farmacêutico, que acaba por desaparecer quando este tem 17 anos. O pai já tinha desaparecido antes, aparentemente já chegou a estar preso por algum tempo, mas este desaparecimento parece ser decisivo, ou seja, permanente… A Farmácia Vida acaba por ser encerrada e a mãe vê-se sem rendimentos para criar o filho e pagar-lhe os estudos. Este é também um dos romances mais marcadamente políticos do autor, com as referências declaradas ao esquerdismo do pai de Cem, que chegou a ser preso, levado para o Departamento de Assuntos Políticos, e torturado. Assim no Verão de 1985, o jovem Cem passa a trabalhar numa livraria, o que desperta também o seu gosto pela leitura bem como a sua aspiração a se tornar escritor. Cem torna-se depois aprendiz de um escavador de poços, o Mestre Mahmut, com quem irá trabalhar em Öngören, uuma pequena cidade nos arredores de Istambul, quando se depara com a visão magnífica e obsessiva de uma mulher de cabelo ruivo, imagem essa que se torna a sua obsessão e o objecto do seu amor.
À semelhança de outros romances como Uma Estranheza em Mim, Orhan Pamuk faz a ponte entre a tradição e a modernidade, como por exemplo nas personagens que invoca com profissões emblemáticas de um passado extinto, como o vendedor de iogurte ou, nesta obra mais recente, um escavador de poços. Mas nesta obra, o Nobel turco vai ainda mais longe e dá uma nova vida ao mito clássico de Édipo num mundo em mudança: «No momento em que saí da estação, fiquei com a certeza de que a velha Öngören já não existia: o prédio para o qual ficava a olhar à procura da janela da Mulher de Cabelo Ruivo fora demolido e, no seu lugar, um centro comercial movimentado enchia toda a praça, atraindo uma multidão jovem ansiosa por comer hambúrgueres e beber cerveja e refrigerantes.» (p. 192)

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Paulo Nóbrega Serra
Written by Paulo Nóbrega Serra
Obtive o grau de doutor em Literatura com a tese «O realismo mágico na obra de Lídia Jorge, João de Melo e Hélia Correia», em Junho de 2013. Mestre em Literatura Comparada e Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, autor da obra O Realismo Mágico na Literatura Portuguesa: O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge e O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo, fruto da minha tese de mestrado. Tenho ainda três pequenas biografias publicadas na colecção Chamo-me: Agostinho da Silva, Eugénio de Andrade e D. Dinis. Colaboro com o suplemento Cultura.Sul e com o Jornal Postal do Algarve, e tenho publicados alguns artigos na área dos estudos literários. Trabalhei como professor do ensino público cerca de 10 anos, ministrei formação. Fui Docente do Instituto Camões em Gaborone na Universidade do Botsuana e na SADC, sendo o responsável pelo Departamento de Português da Universidade e ministrei cursos livres de língua portuguesa a adultos. Realizei entretanto um Mestrado em Didáctica do Português e das Línguas Clássicas, frequento uma formação online de promoção da leitura e preparo-me para uma de revisão. Ler é a minha vida e espero continuar a espalhar as chamas desta paixão entre os leitores amigos que por aqui passam. Resido actualmente na cidade da Beira, Moçambique.