John Berger (1926-2017), crítico de arte, pintor e escritor inglês, é considerado um ícone da contra-cultura e um dos pensadores mais influentes da actualidade. Exilou-se na França rural por mais de meio século como forma de escapar ao capitalismo e aos abusos do governo. Modos de Ver, agora publicado pela Antígona, foi escrito em 1972 e é o seu ensaio mais famoso, escrito na sequência do êxito obtido com a série homónima da BBC, transversal a vários públicos, e quase 50 anos depois permanece uma referência na crítica de arte como objecto de estudo dos académicos. Na «Nota ao Leitor» explicita-se, contudo, que o livro é produto de 5 autores: John Berger; Sven Blomberg; Chris Fox, Michael Dibb e Richard Hollis. Partindo de algumas das ideias contidas na série, aqui aprofundadas, o livro compõe-se de sete ensaios numerados mas que não implicam uma leitura sequencial. Três desses ensaios são visuais, isto é, compostos exclusivamente por imagens de obras de arte e a informação sobre as reproduções surge apenas no final do livro, para não «distrair o leitor do que aí se pretende enfatizar» (pág. 15).
No primeiro ensaio, um pouco mais genérico, aborda-se a imagem, nomeadamente na pintura, e a forma como esta comunica com o espectador, porque apesar de o acto de ver ser algo natural ao ser humano, e um dos primeiros sentidos a desenvolver, o olhar é um gesto voluntário, reflexivo, e enquadrado por aquilo que conhecemos e em que acreditamos: «Ver vem antes das palavras. Mesmo antes de saber falar, a criança olha e reconhece.» (pág. 17); «Só vemos aquilo para que olhamos. Olhar é um acto de escolha.» (pág. 18)
No terceiro ensaio (dos quatro ensaios compostos por palavras e imagens ilustrativas), aborda-se especificamente a nudez feminina na pintura e como esta serve a fruição estética e sexual de um espectador que se subentende masculino, além de que os produtores dessa arte foram eles próprios homens – seria aliás interessante contemplar a existência ou não de uma nudez no feminino representada por mulheres pintoras.
No sétimo ensaio, analisa-se como a sociedade contemporânea (relembre-se que falamos do início dos anos 70) vive rodeada de imagens como nunca antes aconteceu. A pintura outrora ao serviço das elites deu lugar a uma popularização da imagem publicitária que invadiu o nosso campo de visão e absorvem a nossa atenção mesmo que involuntária ou inconscientemente. É neste último ensaio que se sente a posição crítica de John Berger ao capitalismo e aos valores que passaram a ditar a sociedade, já prenunciados aliás com o mercantilismo e a burguesia que assistiu, e contribuiu, para a expansão da pintura a óleo como forma de representação do património e de um certo modo de vida daqueles que surgem retratados na arte.
Os vários ensaios deste interessantíssimo livro, escrito de forma escorreita, servem para olhar a arte de uma forma diferente da que tem sido prática, e daí a polémica destes ensaios, além de que se reconhece que o espectador ou observador de hoje não pode percepcionar uma obra de arte do modo como esta subentende o seu visionamento, através de pistas que o próprio pintor espalha pela imagem.

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Paulo Nóbrega Serra
Written by Paulo Nóbrega Serra
Obtive o grau de doutor em Literatura com a tese «O realismo mágico na obra de Lídia Jorge, João de Melo e Hélia Correia», em Junho de 2013. Mestre em Literatura Comparada e Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, autor da obra O Realismo Mágico na Literatura Portuguesa: O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge e O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo, fruto da minha tese de mestrado. Tenho ainda três pequenas biografias publicadas na colecção Chamo-me: Agostinho da Silva, Eugénio de Andrade e D. Dinis. Colaboro com o suplemento Cultura.Sul e com o Jornal Postal do Algarve, e tenho publicados alguns artigos na área dos estudos literários. Trabalhei como professor do ensino público cerca de 10 anos, ministrei formação. Fui Docente do Instituto Camões em Gaborone na Universidade do Botsuana e na SADC, sendo o responsável pelo Departamento de Português da Universidade e ministrei cursos livres de língua portuguesa a adultos. Realizei entretanto um Mestrado em Didáctica do Português e das Línguas Clássicas, frequento uma formação online de promoção da leitura e preparo-me para uma de revisão. Ler é a minha vida e espero continuar a espalhar as chamas desta paixão entre os leitores amigos que por aqui passam. Resido actualmente na cidade da Beira, Moçambique.