À Mesa com os Filósofos é um fascinante tratado de Normand Baillargeon, filósofo canadiano, sobre a aparentemente improvável relação entre a comida e a filosofia, publicado pela Temas e Debates.
Na Grécia Antiga, um banquete ou simpósio, reunia amigos para uma «reunião de bebedores», onde o mestre de cerimónias, além das libações, assegurava o bom encadeamento das conversas. (…)
Menos de mil anos mais tarde, Tomás de Aquino aborda o tema da gula como pecado capital, num ambiente monástico em que à mesa não se fala e se faz do jejum um acto virtuoso. Eu posso falar por mim, pois à mesa da cozinha evocava-se sempre o preceito do meu bisavô, de que enquanto se come não se fala, e quando uma vez perguntei «não se fala porque se come ou porque vocês querem ouvir as notícias?» fui trucidado por um daqueles olhares que causam indigestão crónica. E se me aventurava, finda a refeição, a surripiar um pouco de queijo era logo invectivado de «guloso», como quem desfere uma ofensa digna de um pecador inveterado. Já na casa da minha avó, o problema era conseguir sair da mesa sem incorrer em espasmos involuntários, pois «não te levantas da mesa sem comer tudo o que está no prato» e, talvez porque nos seus tempos de juventude, tinham passado fome, com pouco mais do que pão seco, figos e alfarroba nas algibeiras enquanto trabalhavam a terra, serviam na casa de alguém ou varejavam as oliveiras, o prato era sempre servido a transbordar.
Este livro, que se pode degustar como um vinho leve, vai encorpando até se tornar adstringente, pois o que começa como uma evocação dos primórdios clássicos da filosofia em que a comida e especialmente o vinho tiveram um papel central, rapidamente se actualiza numa arguta reflexão sobre a sociedade de hoje…

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Paulo Nóbrega Serra
Written by Paulo Nóbrega Serra
Sou doutorado em Literatura com a tese «O realismo mágico na obra de Lídia Jorge, João de Melo e Hélia Correia», defendida em Junho de 2013. Mestre em Literatura Comparada e Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, autor da obra O Realismo Mágico na Literatura Portuguesa: O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge e O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo, fruto da minha tese de mestrado. Tenho ainda três pequenas biografias publicadas na colecção Chamo-me: Agostinho da Silva, Eugénio de Andrade e D. Dinis. Colaboro com o suplemento Cultura.Sul e com o Jornal Postal do Algarve, e tenho publicados vários artigos na área dos estudos literários. Trabalhei como professor do ensino público cerca de 10 anos e ministrei formações. De Agosto de 2014 a Setembro de 2017, fui Docente do Instituto Camões em Gaborone na Universidade do Botsuana e na SADC, sendo o responsável pelo Departamento de Português da Universidade e ministrei cursos livres de língua portuguesa a adultos. Realizei um Mestrado em Didáctica do Português e das Línguas Clássicas e uma pós-graduação em Ensino Especial. Ler é a minha vida e espero continuar a espalhar as chamas desta paixão entre os leitores amigos que por aqui passam. Resido actualmente na cidade da Beira, Moçambique, onde coordeno um Centro Cultural Português, do Camões, dois Centros de Língua Portuguesa, nas Universidades da Beira e de Quelimane. Sou docente na Universidade Pedagógica da Beira, onde leciono Didáctica do Português a futuros professores.