João Reis nasceu em Vila Nova de Gaia em 1985. Licenciado em Filosofia, foi fundador e editor da Eucleia Editora, de 2010 a 2012. É tradutor literário, especialista em línguas nórdicas, tendo traduzido para português livros de Knut Hamsun, Halldór Laxness e Patrick White, entre muitos outros. Entre 2012 e 2015, trabalhou e residiu na Noruega, Suécia e Inglaterra, onde exerceu várias profissões, como trabalhar numa cozinha ou num armazém de vinhos. Não deixa de ser curioso o percurso deste jovem tradutor e autor, que aprendeu diversas línguas pela sua própria iniciativa, procurando professores particulares.

A noiva do tradutor, primeira novela do autor (ed. Companhia das Ilhas), é uma narração na primeira pessoa, em corrente de consciência, em que o autor consegue a proeza de levar o leitor a fluir juntamente com o pensamento da personagem principal, um tradutor, que parece zangado com o mundo e com todos, certamente com razão. Mas passadas algumas páginas o leitor não pode deixar de se perguntar até que ponto toda esta injustiça de que o tradutor é vítima será, ou não, responsabilidade dele próprio. As frases distendem-se, entre a descrição, a narração e os constantes à partes do tradutor, que constantemente critica e injuria alguém ou algo, especialmente o país, num domínio perfeito da prosa de um autor que se estreia com esta obra. É difícil não estabelecer alguma relação autobiográfica entre a personagem e o autor, ambos tradutores, nomeadamente quando o protagonista, herói algo pícaro, refere que não se sente bem no seu país e no qual não consegue vingar nas letras ou com traduções.

A Avó e a Neve Russa (Elsinore), primeiro romance do autor escrito no decurso de uma residência literária em Montreal, no Canadá, em 2015, é também ele narrado na primeira pessoa, agora a partir da perspectiva de um menino de dez anos, nascido no Canadá. O menino não tem nome e apenas o conhecemos pela alcunha que alguns amigos lhe dão, Russkiy, da mesma forma que a sua avó Svetlana, centro do mundo deste menino, é designada por Babushka (avó em russo), e que está a morrer com cancro do pulmões, de gases libertados no desastre de Chernobyl. A história tem algo de fábula, como se esta avó representasse também o século XX que se despede, e apesar do menino ser ainda tão novo e inocente, as suas referências ao capitalismo do mundo ocidental vs. comunismo da «Antiga-Soviética», bem como ao Holocausto, são constantes. Não deixa aliás de ser curioso que a certa altura seja um judeu que o acompanha na sua fuga, e que Russkiy considera como a pessoa ideal para o ajudar, justamente por aquilo que terá vivido enquanto judeu, ao mesmo tempo que o menino invoca fragmentos do que ele sabe sobre o Holocausto. A dado momento, o nosso jovem herói dá por si num camião cheio de membros e torsos, corpos desmembrados, que não são pessoas, ao contrário do que ele inicialmente acredita, mas manequins… É assim que o autor consegue encantar o leitor, fazendo-o partilhar do maravilhamento desta criança que ainda está a descobrir um mundo, ao qual não deixa de se sentir estranho, ou não fosse ele um desenraizado, nascido no seio de uma família estrangeira ao local que agora os acolhe, e sendo também órfão, pois a mãe morreu e o pai abandonou-os. É ainda de uma fina ironia que este menino queira chegar ao México à procura de um cacto milagroso, e imagina que um dia pode mesmo construir estufas e plantá-los: «mando construir uma fábrica para fazer chá e pó do cato e vender às pessoas, e aí sim, serei um grande capitalista.» (p. 141) Perguntamo-nos se é de facto um cacto ou se será outra planta milagrosa mexicana, capaz de aliviar as dores e as preocupações…
São igualmente desenraizadas as personagens que compõem o mundo deste menino, como o português Senhor Pereira, com o seu Deus-galo (de Barcelos), e dono de um restaurante, quase de certeza de frango assado; ou o chinês Huan; ou o vagabundo Matt, descendente de judeus.
O autor volta a brincar com a questão da linguagem, não só por uma criança que domina várias línguas, como a língua de herança, o russo, depois o francês, do país em que nasceu e o acolhe, mas especialmente pelos equívocos que esta criança, muito lida e esperta para a idade – ou assim se afirma –, estabelece, como, por exemplo, quando chama gulasch a um gulag, quando assume que oncologia é o estudo dos pássaros (ornitologia), ou quando considera como o irmão gosta de «música metalúrgica». Com subtileza, sem propriamente forçar os equívocos, apesar de por vezes serem repetitivos, o autor consegue criar humor a partir de situações delicadas e levar-nos pelos olhos dessa criança a redescobrir o mundo e as palavras que lhe dão sentido.

A Devastação do Silêncio (Elsinore) é o seu mais recente romance, publicado no dia 16 de Abril, com ilustrações de Lord Mantraste, que tão bem acentuam a crueza e a ironia deste livro.
Afirmava alguém que muitos escritores da nova geração não parecem ter memória do 25 de Abril (até porque não o viveram) nem reconhecer a importância desse momento de cisão, do mesmo modo que alguns destes autores optam por situar as suas narrativas num cenário universal e anódino, sem nada que o torne especificamente português.
Parece sincronia esta coincidência entre a publicação do livro e a efeméride dos cem anos decorridos desde a Batalha de La Lys, em que o Corpo Expedicionário Português foi dizimado. O autor recorda aqui a história de um tio-bisavô, soldado prisioneiro num campo de prisioneiros alemão, durante a Primeira Guerra, sem documentos que o confirmem como oficial, pois foram-lhe roubados, obrigado a partilhar as miseráveis condições de vida dos restantes soldados. O protagonista terá sido «engenheiro na vida civil» (p. 42), estudou em França, e nasceu com uma assimetria corporal do ombro para baixo, o que lhe valeu dispensa, sendo alistado como engenheiro militar, e depois promovido a oficial e a capitão. A sua história é uma vez mais narrada na primeira pessoa, dando a conhecer a Guerra não nos grandes acontecimentos (e mortandades) mas pelo tédio, pela rotina, pela fome e pela pouca higiene: «os piolhos saltavam-lhe do cabelo… estava cheio deles, atafulhado… os outros homens pouco se importavam, pois se não fossem os piolhos, eram os carrapatos, mais sangue, menos sangue… ali, eram essas as batalhas que nos restavam.» (p. 20)
Os prisioneiros morrem não da guerra, mas da doença: «a doença alastrava pelo campo, a tuberculose e a pneumonia matavam-nos aos poucos, no inverno anterior, os romenos haviam morrido às dezenas por conta da gripe (…), os romenos morreram às pazadas, era o que se dizia, que tinham perecido às centenas com disenteria, decerto propagavam-se também todos os géneros de pestilências labiais e linguais… pústulas… carne viva… lacerações…» (p. 22).
Um livro negro, como o primeiro, sarcástico, com laivos grotescos, condizentes à realidade descrita, sem dourados nem subtilezas, mas ainda assim com um fino humor e ironia: «a guerra traria o derradeiro estádio civilizacional dos respectivos povos (…), mais alguns anos e desenvolveríamos guelras e barbatanas» (p. 96).
A narrativa alterna entre um presente, em que o protagonista se encontra com alguém a uma mesa de café – e por isso sabemos que sobreviverá -, enquanto se discute uma gravação com a sua voz. A narrativa é assim um trabalho de rememoração, por vezes com carácter metaficcional. Note-se como o oficial invoca constantemente a necessidade do silêncio – que terá sido aliás a sua melhor arma e garante de sobrevivência durante a guerra: «é preferível manter a ambiguidade, a incerteza, trata-se de uma técnica que utilizei ao longo da vida com enorme proveito» (p. 95). Ao mesmo tempo que invoca a constante vontade em escrever sobre aquilo que testemunha, mas sem papel onde assentar o seu depoimento: «Queria escrever, anotar aquilo em que pensava, o que acontecera no campo nesse dia, decidi não escrever, faltava-me o papel e era inútil, uma perda de tempo, portanto pus-me então à escuta de pássaros» (p. 25).
Português prisioneiro num campo alemão, cria-se também a possibilidade de perspectivar o soldado luso a partir do outro, enquanto simultaneamente se traça uma reflexão acerca desse outro: «Os alemães dedicam-se à ponderação, levantam dúvidas curiosíssimas, é impossível alcançar um tal ponto de civilização nos nossos penhascos e barrancos…» (p. 90)

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Paulo Nóbrega Serra
Written by Paulo Nóbrega Serra
Obtive o grau de doutor em Literatura com a tese «O realismo mágico na obra de Lídia Jorge, João de Melo e Hélia Correia», em Junho de 2013. Mestre em Literatura Comparada e Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, autor da obra O Realismo Mágico na Literatura Portuguesa: O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge e O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo, fruto da minha tese de mestrado. Tenho ainda três pequenas biografias publicadas na colecção Chamo-me: Agostinho da Silva, Eugénio de Andrade e D. Dinis. Colaboro com o suplemento Cultura.Sul e com o Jornal Postal do Algarve, e tenho publicados alguns artigos na área dos estudos literários. Trabalhei como professor do ensino público cerca de 10 anos, ministrei formação. Fui Docente do Instituto Camões em Gaborone na Universidade do Botsuana e na SADC, sendo o responsável pelo Departamento de Português da Universidade e ministrei cursos livres de língua portuguesa a adultos. Realizei entretanto um Mestrado em Didáctica do Português e das Línguas Clássicas, frequento uma formação online de promoção da leitura e preparo-me para uma de revisão. Ler é a minha vida e espero continuar a espalhar as chamas desta paixão entre os leitores amigos que por aqui passam. Resido actualmente na cidade da Beira, Moçambique.