Apontado frequentemente nos últimos anos como forte candidato para o Nobel da Literatura, Haruki Murakami é um autor japonês, nascido no ano de 1949, em Quioto. Se é um autor efetivamente passível de qualidade para ganhar o mais importante prémio literário essa será outra questão, embora seja certamente reconhecido como fortemente experimentalista e vende milhões. Talvez seja um reflexo dos tempos modernos, em que o vendável combate o cânone ou a qualidade da linguagem literária, todavia é inegável que Murakami conta com uma legião de fãs por todo o mundo, com particular destaque no setor juvenil. Em Portugal os seus livros têm enchido as estantes de livrarias desde Kafka à beira-mar, que foi certamente o romance que o lançou, apesar de se considerar que o Crónica do Pássaro de Corda será a sua obra-prima, embora menos acessível devido a um certo nível de violência.

A trilogia intitulada 1Q84 foi o seu último romance por ele escrito e penúltimo a chegar às livrarias, porquanto foi entretanto editado O impiedoso País das Maravilhas e o Fim do Mundo, uma tradução mais tardia de um seu primeiro romance.

1Q84 foi dividido em três volumes pela Casa das Letras, embora não constitua propriamente uma trilogia, em que a história se desenrola lenta e suavemente, por vezes chegando até a ser desesperante, nomeadamente no primeiro tomo.

Quais serão então os ingredientes narrativos que levam milhões a devorar os livros desconcertantes, densos e, inclusive, extensos deste autor? Alguns críticos têm apontado os seus romances como pertencentes a essa categoria do realismo mágico, mas Murakami não corresponde inteiramente aos critérios dessa corrente de escrita, embora predomine na sua ficção uma certa indeterminação que torna compreensível essa associação. O fantástico invade o quotidiano das personagens, pois da mesma forma que a narração se prende demoradamente com todos os gestos perfeitamente banais (como o cozer esparguete) de pessoas imersas numa rotina, o que pode configurar as suas próprias estratégias de sobrevivência, desde a comida que preparam para comerem sozinhas no seu apartamento, onde vivem isoladas de alguma forma, até à música que ouvem, há também um “mundo outro” que parece sobrepor-se ou existir lado a lado ao nosso. E se estas personagens não tiverem cuidado e fizerem coisas fora da norma, como, por exemplo, quando uma jovem sai de um táxi preso no tráfego em hora de ponta, em 1Q84, e desce uma escada de incêndio na auto-estrada, assemelham-se a personagens de contos de fadas que, ao cometerem alguma transgressão, acabam por se cair numa toca de coelho ao estilo de Alice no País das Maravilhas (não é, portanto, acidental que esse seu primeiro livro tenha sido assim intitulado).

Da mesma forma que existe essa indeterminação entre o fantástico e o real, e apesar de o tempo e o espaço não serem nunca esbatidos mas sim concretos, pois a ação é sempre localizada no Japão moderno, os seus romances são lidos sem qualquer barreira cultural por jovens e adultos de realidades socioculturais completamente distintas,  pois Murakami «fala-lhes ao ouvido», como defende a sua tradutora. Tradutora essa que, embora seja um caso raro no mercado editorial português, tem-se mantido sempre a mesma (à exceção do livro 1Q84 que, por ser maior que o normal, e devido, certamente, a alguma urgência comercial na publicação).

A sua ficção pauta-se por certos temas constantes, como a solidão, a procura de um sentido, a música, nomeadamente o jazz (sendo que Murakami era inclusive dono de um bar de jazz antes de se dedicar exclusivamente à escrita), talvez como forma de marcar essa nota de pungência na alma das personagens, com vidas anódinas, cinzentas, que subitamente podem ver-se confrontadas com experiências-limite, ou como diria Alejo Carpentier, um certo «estado de fé» em que se veem confrontadas com situações aparentemente inexplicáveis e surreais, como figuras que parecem viver na sombra e surgir como aparições ou divindades portadoras de algum conhecimento transcendente sobre as próprias personagens (como Em busca do carneiro selvagem) embora essas situações aparentemente insólitas que podem determinar o curso de uma vida que seguia sob a capa de uma certa alienação social ocorram de forma tão natural como uma conversa num cadeirão de uma qualquer casa. Os gatos, como o de Kafka à beira-mar, são um elemento recorrente na sua obra, que talvez configure, por um lado, a companhia por excelência destes personagens urbanos que vivem um pouco perdidos num estranho limbo em que muitas vezes nem parecem ter de sair de casa para trabalhar como qualquer pessoa normal, ou por outro lado, talvez vistam a pele de um coelho branco que pode servir de guia ou guardião a estes protagonistas arrastados por eventos que os superam.

O ponto menos positivo dos seus livros serão, provavelmente, as traduções. Apesar de a crítica ter vindo a elogiar constantemente o trabalho de conversão da língua inglesa para a portuguesa (pois no nosso mercado editorial são raros ou inexistentes os tradutores que vertam diretamente do japonês ou do mandarim para português), no leitor menos comum pode provocar alguma confusão deparar-se com expressões como «Cus de judas» e «meter o Rossio na Betesga», embora haja sempre a desculpa e argumento de que se procura traduzir segundo o espírito de quem lê em vez de se ser fiel ao sentido literal da obra. O tema do sexo, e de uma certa homossexualidade feminina, também perpassa os seus romances, como em Sputnik, meu amor ou After Dark – Os Passageiros da Noite, mas em 1Q84 ele é explorado mais fortemente e a própria linguagem torna-se mais forte.

Esses temas encontram ressonância em diverso cinema da atualidade, embora os seus romances não tenham sido adaptados

Os seus livros mais realistas serão, certamente, uma espécie de livro de ensaio, em que o autor associa o processo da escrita ao de ser corredor de maratonas, em Auto-Retrato do Escritor Enquanto Corredor de Fundo, onde o autor abre a alma num livro onde se confidencia e medita sobre a (sua) natureza humana e enquanto escritor, pois foi numa curiosa associação que, em 1982, ao mesmo tempo que abandonava o lugar à frente do clube de jazz e se dedicou à escrita, Murakami começou a correr – talvez justamente porque estava inconscientemente ou não a fugir de algo ou a querer deixar uma parte da sua vida para trás. Foi-se lançando então gradativamente em desafios pessoais cada vez maiores, em distância e esforço físico, participando em dezenas de provas de longa distância e triatlos. Outro livro não-ficcional e mais documental, é Underground, que conta a dolorosa e real história do atentado ocorrido na manhã de 20 de Março de 1995, em três linhas do metropolitano de Tóquio, onde compõe as entrevistas que realizou a dezenas de vítimas do gás sarin, procurando mesmo estabelecer uma relação entre o atentado e a mentalidade japonesa.

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Paulo Nóbrega Serra
Written by Paulo Nóbrega Serra
Obtive o grau de doutor em Literatura com a tese «O realismo mágico na obra de Lídia Jorge, João de Melo e Hélia Correia», em Junho de 2013. Mestre em Literatura Comparada e Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, autor da obra O Realismo Mágico na Literatura Portuguesa: O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge e O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo, fruto da minha tese de mestrado. Tenho ainda três pequenas biografias publicadas na colecção Chamo-me: Agostinho da Silva, Eugénio de Andrade e D. Dinis. Colaboro com o suplemento Cultura.Sul e tenho publicados alguns artigos na área dos estudos literários. Trabalhei como professor do ensino público cerca de 10 anos, ministrei formação e sou actualmente Leitor do Instituto Camões em Gaborone na Universidade do Botsuana e na SADC, sendo o responsável pelo Departamento de Português da Universidade e onde ministro cursos livres de língua portuguesa a adultos. Realizei entretanto um Mestrado em Didáctica do Português e das Línguas Clássicas, frequento uma formação online de promoção da leitura e preparo-me para uma de revisão. Ler é a minha vida e espero continuar a espalhar as chamas desta paixão entre os leitores amigos que por aqui passam.