A Quetzal publicou O espírito da ficção científica, um livro inédito de Roberto Bolaño, preparando ainda para este ano uma edição especial de 2666, uma nova tradução de Detectives Selvagens, Pátria, um volume que reúne três novelas e outra obra inédita.
Tenho lido várias obras do autor – mais recentemente li o 2666 que não é uma obra fácil embora a tenha começado de forma compulsiva – e estava expectante com este livro de dimensão pequena mas importante para a compreensão do conjunto da obra do autor. Esta é uma narrativa aparentemente desconexa tanto que o próprio autor apela a um «paciente leitor» (p. 100), pois está construída de forma tripartida, alternando entre uma entrevista «absurda», de uma entrevistadora a um autor, a narração da vida dos jovens Jan e Remo durante a sua travessia pela descoberta da vida e da literatura e do mistério das revistas literárias em franca expansão e da sexualidade na Cidade do México dos anos 70, e cartas de Jan a autores de ficção científica, pode-se dizer que recuamos até à adolescência das personagens presentes nas obras de Bolaño: «eu era um mirone na Cidade do México, um recém-chegado bastante pretensioso e um poeta desajeitado de vinte e um anos. Quero dizer que nem a cidade me passava cartão nem os meus sonhos conseguiam ultrapassar os limites do pedantismo e do péssimo artifício» (p. 123).
Existem frases de grande beleza lírica, mesmo quando se incorre na descrição de imagens que noutros autores podiam soar batidas, a que Bolaño confere sempre um sabor novo, como a Lua como um lençol batido pelo vento, ou as nuvens a chupar a chuva, mesmo quando as comparações são pouco convencionais: «Todos os sorrisos cabiam num. E o olho do enamorado é como o olho da mosca, de tal maneira que é possível que tenha incluído nos lábios e nos dentes de Laura sorrisos alheios.».
Nunca acho os livros de Bolaño fáceis de decifrar, mas como se pode ler no próprio texto: «Desenganem-se, não há textos estranhos; miseráveis e luminosos, alguns, mas não estranhos.» (p. 131).

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Paulo Nóbrega Serra
Written by Paulo Nóbrega Serra
Obtive o grau de doutor em Literatura com a tese «O realismo mágico na obra de Lídia Jorge, João de Melo e Hélia Correia», em Junho de 2013. Mestre em Literatura Comparada e Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, autor da obra O Realismo Mágico na Literatura Portuguesa: O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge e O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo, fruto da minha tese de mestrado. Tenho ainda três pequenas biografias publicadas na colecção Chamo-me: Agostinho da Silva, Eugénio de Andrade e D. Dinis. Colaboro com o suplemento Cultura.Sul e tenho publicados alguns artigos na área dos estudos literários. Trabalhei como professor do ensino público cerca de 10 anos, ministrei formação e sou actualmente Leitor do Instituto Camões em Gaborone na Universidade do Botsuana e na SADC, sendo o responsável pelo Departamento de Português da Universidade e onde ministro cursos livres de língua portuguesa a adultos. Realizei entretanto um Mestrado em Didáctica do Português e das Línguas Clássicas, frequento uma formação online de promoção da leitura e preparo-me para uma de revisão. Ler é a minha vida e espero continuar a espalhar as chamas desta paixão entre os leitores amigos que por aqui passam.