Este pequeno livro de bolso da Bertrand Editora começa como um trabalho de metaficção, em que um argumentista, instalado numa casa de férias nos Alpes com a mulher e a filha de 4 anos, tenta escrever o argumento da sequela do seu filme de sucesso. Mas se de início a narrativa é perpassada por uma escrita que se pensa a si própria e onde não faltam referências a uma linguagem cinematográfica, com alguns fade in e flashback, a história começa rapidamente a transformar-se em mais do que a tentativa de escrita de um argumento muito imberbe, pois assemelha-se a um diário, organizado com entradas por datas, entre 2 a 7 de Dezembro de um ano qualquer. Pode até bem ser o caderno inacabado a que o escritor se refere, onde escreve os seus pensamentos, intercalado com as cenas e diálogos do argumento, e descreve alguém que parece transpôr o limiar da loucura.
Se de início o narrador, sempre sem nome, começa por dar conta de como o seu casamento parece estar em crise, com discussões constantes, e ele próprio parecer um pouco alienado e preferir isolar-se no seu próprio mundo, enquanto tenta dar mostras de progresso no trabalho, que na verdade pouco evolui, a partir de metade do livro a narrativa ganha contornos de um thriller psicológico. Curiosamente, assim que se sai do cenário da casa e o narrador vai até à aldeia para se reabastecer de provisões, uma mulher avisa-o: «Vá-se embora depressa.»
A partir daí o livro descende numa espiral de distorção do real. Os estranhos sonhos e pesadelos são recorrentes. A casa ganha quartos novos e outros há que mudam de lugar. No seu caderno aparecem palavras que ele não escreveu. As leis da geometria são abolidas. Os reflexos nas janelas surgem distorcidos em relação à realidade espelhada, pois não reflectem o escritor na sala. Fotografias aparecem e desaparecem das paredes. Outra pessoa parece andar pela casa. Ou talvez a dissociação entre escritor e pessoa seja tão forte que ele se começa a projectar a si próprio. E é pela escrita que ele tenta salvar-se e reencontrar-se:
«Escrevo muito depressa, anoto o que se passou. Tenho de escrever isso para não enlouquecer. Ou para o caso de qualquer coisa me acontecer.» (p. 63)
Daniel Kehlmann, alemão, é um dos escritores favoritos de Ian McEwan e de Jonathan Franzen. O livro está a ser adaptado ao cinema, numa produção e interpretação de Kevin Bacon. A sua obra A Medida do Mundo é um dos mais conhecidos bestseller da literatura alemã, traduzido para mais de quarenta línguas, e igualmente adaptado ao cinema.

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Paulo Nóbrega Serra
Written by Paulo Nóbrega Serra
Sou doutorado em Literatura com a tese «O realismo mágico na obra de Lídia Jorge, João de Melo e Hélia Correia», defendida em Junho de 2013. Mestre em Literatura Comparada e Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, autor da obra O Realismo Mágico na Literatura Portuguesa: O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge e O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo, fruto da minha tese de mestrado. Tenho ainda três pequenas biografias publicadas na colecção Chamo-me: Agostinho da Silva, Eugénio de Andrade e D. Dinis. Colaboro com o suplemento Cultura.Sul e com o Jornal Postal do Algarve, e tenho publicados vários artigos na área dos estudos literários. Trabalhei como professor do ensino público cerca de 10 anos e ministrei formações. De Agosto de 2014 a Setembro de 2017, fui Docente do Instituto Camões em Gaborone na Universidade do Botsuana e na SADC, sendo o responsável pelo Departamento de Português da Universidade e ministrei cursos livres de língua portuguesa a adultos. Realizei um Mestrado em Didáctica do Português e das Línguas Clássicas e uma pós-graduação em Ensino Especial. Ler é a minha vida e espero continuar a espalhar as chamas desta paixão entre os leitores amigos que por aqui passam. Resido actualmente na cidade da Beira, Moçambique, onde coordeno um Centro Cultural Português, do Camões, dois Centros de Língua Portuguesa, nas Universidades da Beira e de Quelimane. Sou docente na Universidade Pedagógica da Beira, onde leciono Didáctica do Português a futuros professores.