Colleen McCullough nasceu na Austrália e faleceu no dia 29 de Janeiro de  em 2012. Formou-se como neuropatologista e mais tarde foi investigadora e professora em Yale, durante dez anos. O seu romance de estreia foi Tim, que conta a improvável história de amizade e amor entre uma mulher e um jovem extremamente bonito mas que possui a inteligência de uma criança.

Pássaros Feridos foi o livro que projetou a autora. Uma saga familiar, que corre três gerações e atravessa o século, tecida de sonhos e amores proibidos. Passada na Austrália, esta narrativa conta a história da sobrevivência de um rancho numa terra bela e árida. Pássaros Feridos foi depois adaptado ao pequeno ecrã, em formato de série, e é certamente lembrado pela história de amor de Meggie e do padre Ralph de Bricassart, de uma intensa ligação que mesmo camuflada perdura uma vida inteira.

A Independência de uma Mulher parte da história sobejamente conhecida de Elizabeth Bennet, que se casou com o senhor Darcy, no romance Orgulho e Preconceito, de Jane Austen. Contudo, em vez de se centrar nas figuras centrais do romance, a autora procura desvendar o véu que cobre a vida de Mary, a irmã de Elizabeth, que se transforma numa mulher independente de obrigações familiares, e inspirada pela prosa de Argos, pseudónimo que oculta a verdadeira identidade deste cronista, Mary decide escrever um livro onde intenta fazer uma dura crítica social, expondo os males do seu país e o drama dos pobres.

A saga «O Primeiro Homem de Roma», originalmente publicada pela Difel, cujo primeiro título foi reeditado, no ano passado, pela Bertrand sob o título «Os Senhores de Roma», figura como uma série à parte, onde se revela indubitavelmente a erudição e a capacidade de escrita desta senhora.

O Primeiro Homem de Roma (publicado na Difel com o subtítulo O Amor e o Poder) acompanha o período do final da República e início do Império Romano. A autora entrelaça com mestria a vida íntima de grandes figuras históricas com a política, as questões de legislação discutidas no Senado, as rivalidades familiares entre os patrícios de Roma e narra fabulosas cenas bélicas numa história rica em pormenores da vida de Roma Antiga. Foi considerado um dos dez melhores livros do ano, quando originalmente publicado, fruto de uma investigação impecável e de um nível de pormenor meticuloso. Todos os volumes são densos tomos de quase mil páginas: A Coroa de Erva, Os Favoritos da Fortuna, As Mulheres de César, César, O Cavalo de Outubro, António e Cleópatra. Depois do ocaso de Mário e Sula, generais romanos que disputavam o título de Primeiro Homem, acompanhamos simultaneamente, o crescimento e ascensão do jovem Caio César, sempre seguro de si e da sua ambição. É também particularmente interessante ver como todos estes grandes líderes estão sempre rodeados de grandes mulheres que muitas vezes os impulsionam também nas suas ações e decisões. Ao longo de cerca de 8000 páginas percorremos assim toda essa galeria épica de figuras histórias e outras menos conhecidas, que ainda hoje fazem parte da nossa cultura, como César, Servília, Catão, Bruto, Cleópatra, Marco António, Marco Crasso, Pompeu Magno, até que encerramos esta saga com Octávio Augusto, sobrinho e filho adotivo de César, escolhido deliberadamente para manter a unidade do Império.

Em A Canção de Tróia, a autora regressa novamente à cultura clássica, apresentando um fresco repartido composto por várias pequenas histórias que traçam o retrato de diversas figuras da mitologia grega.

Mais tarde, a autora desviou-se do romance histórico para o romance policial, com vários livros centrados na figura do polícia detective Carmine Delmonico: Um Passo à Frente, com um final deveras intrigante e inesperado, O Dia de Todos os Pecados, centrado no ano de 1967, em que num só dia, na pequena cidade de Holloman, ocorrem doze homicídios, e Crueldade a Nu, onde Delmonico tenta descobrir a identidade do perpetrador de diversas violações que se sucedem rapidamente.

A autora escreveu vários outros romances, onde geralmente podemos encontrar jovens protagonistas “românticas” que lutam pela concretização dos seus sonhos e, nessa senda, definem a sua personalidade.

Agridoce conta a história de dois pares de gémeas e tem como cenário a Austrália das décadas de 20 e 30. Edda quer ser médica, Tufts é uma jovem prática, que deseja ter sempre tudo organizado e repudia a ideia de casamento, Grace é uma jovem independente mas que deseja casar e Kitty está cansada de apenas ser reconhecida pela sua beleza. São conhecidas na Nova Gales do Sul pela sua beleza, espírito e ambição, mas conforme se aproximam da maturidade, as perspetivas limitadas da sua vida futura desmoralizam-nas. Todas elas decidem então inscrever-se numa formação em enfermagem, uma nova opção para as mulheres que, regra geral, se viam confinadas ao lar. As irmãs Latimer irão conhecer outras pessoas e encontrar desafios que em muito contribuirão para a sua maturidade, formação pessoal e a sua independência. Inevitavelmente, conhecerão homens de todos os quadrantes sociais, quer sejam agricultores, colegas no hospital e até mesmo homens com cargos públicos e políticos, e cada uma das irmãs terá de reavaliar as suas decisões e aspirações e decidir aquilo que é para elas mais importante.

O título Agridoce talvez não seja muito feliz, remetendo os potenciais leitores para um título próprio de todo um novo gênero literário “cor-de-rosa” que enche as livrarias com uma série de histórias superficiais de paixão, mas Colleen McCullough é certamente uma autora que continua a despertar interesse e a arrebatar corações com uma escrita sensível. Aquando da sua publicação em Portugal, apresentou-se Agridoce como o primeiro romance épico da autora desde Pássaros Feridos, mas na verdade existiram outros dois grandes livros, intitulados A Viagem de Morgan e O Toque de Midas, separados entre si por gerações, embora ambos tracem um retrato histórico extremamente minucioso de como surgiu a Austrália. A Viagem de Morgan conta a aventura de Richard Morgan, um homem instruído que arranja trabalho numa destilaria de rum, contudo a sua inteligência e retidão deixá-lo-ão em apuros quando encontra canos escondidos que desviam ilegalmente centenas de galões de rum, para fugir aos impostos. O protagonista encontrar-se-á subitamente enredado numa teia de corrupção, sendo preso e enviado num dos vários navios de deportados rumo à nova colónia penal da Austrália. Aí assistimos ao quotidiano de um país que irá emergir do nada, ao mesmo tempo que os seus habitantes tentam resistir tanto a desastres naturais como às falsidades dos outros condenados. O livro podia quase ser lido como um romance de aventuras se não fosse o facto de assistir a esta história uma investigação exaustiva no que concerne aos mais variados aspetos da época, formando assim um microcosmos que representa os primórdios da nação australiana.

 

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Paulo Nóbrega Serra
Written by Paulo Nóbrega Serra
Obtive o grau de doutor em Literatura com a tese «O realismo mágico na obra de Lídia Jorge, João de Melo e Hélia Correia», em Junho de 2013. Mestre em Literatura Comparada e Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, autor da obra O Realismo Mágico na Literatura Portuguesa: O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge e O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo, fruto da minha tese de mestrado. Tenho ainda três pequenas biografias publicadas na colecção Chamo-me: Agostinho da Silva, Eugénio de Andrade e D. Dinis. Colaboro com o suplemento Cultura.Sul e tenho publicados alguns artigos na área dos estudos literários. Trabalhei como professor do ensino público cerca de 10 anos, ministrei formação e sou actualmente Leitor do Instituto Camões em Gaborone na Universidade do Botsuana e na SADC, sendo o responsável pelo Departamento de Português da Universidade e onde ministro cursos livres de língua portuguesa a adultos. Realizei entretanto um Mestrado em Didáctica do Português e das Línguas Clássicas, frequento uma formação online de promoção da leitura e preparo-me para uma de revisão. Ler é a minha vida e espero continuar a espalhar as chamas desta paixão entre os leitores amigos que por aqui passam.