É possivelmente o melhor romance de Dickens mas não a sua melhor-obra, disse alguém…
Cansei-me de esperar pela tão longamente anunciada edição da Relógio d’Água e comprei a da E-Primatur, editora que funciona em regime de crowdfunding, ou seja, as obras propostas pelos editores, leitores ou padrinhos do projecto são apresentadas e avaliadas na página da editora, e depois publicadas com o apoio dos leitores através de um mecanismo de financiamento colectivo.
Nesta obra tece-se num novelo a vida de várias e diversas personagens, quer da classe alta como das classes mais baixas de Londres, um pouco à semelhança do próprio processo cujo penoso arrastar se narra nestas páginas e que desgraça a vida de personagens como Richard, que se deixam enlear na miragem de uma fortuna fácil que nunca chegará, deixando-se além disso arruinar no pleito jurídico. O enredo é complexo, dada a prolixidade das personagens, mas o autor não deixa que o leitor se perca ou boceje pois, como se sabe, dominava a pena com mestria, ou não fosse ainda hoje um dos autores mais conhecidos mundialmente e cujas personagens lhe sobrevivem, nos mais variados campos artísticos…
A par da ironia e de alguns apontamentos mais divertidos deixados pelo narrador, abordando directamente o leitor, existe ainda uma propensão para o sombrio ou tétrico, a condizer com o título, como quando se fala do mau agoiro dos passos ouvidos no Passeio do Fantasma.
A história de uma mulher altiva e de orgulho frio, Lady Dedlock, cujo desvendar de um segredo revela a sua verdadeira natureza, com fins trágicos, ao mesmo tempo que a doce Esther desabrocha de uma condição humilde para a de uma mulher de destaque social e de uma bondade que ilumina todos em seu redor.
Terminada a obra, sugere-se ainda o visionamento da série da BBC, lançada em 2005 e constituída por 15 episódios, e com Gillian Anderson (Dana Scully dos Ficheiros Secretos) num dos principais papéis.

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Paulo Nóbrega Serra
Written by Paulo Nóbrega Serra
Sou doutorado em Literatura com a tese «O realismo mágico na obra de Lídia Jorge, João de Melo e Hélia Correia», defendida em Junho de 2013. Mestre em Literatura Comparada e Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, autor da obra O Realismo Mágico na Literatura Portuguesa: O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge e O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo, fruto da minha tese de mestrado. Tenho ainda três pequenas biografias publicadas na colecção Chamo-me: Agostinho da Silva, Eugénio de Andrade e D. Dinis. Colaboro com o suplemento Cultura.Sul e com o Postal do Algarve (distribuídos com o Expresso no Algarve e disponíveis online), e tenho publicado vários artigos e capítulos na área dos estudos literários. Trabalhei como professor do ensino público de 2003 a 2013 e ministrei formações. De Agosto de 2014 a Setembro de 2017, fui Docente do Instituto Camões em Gaborone na Universidade do Botsuana e na SADC, sendo o responsável pelo Departamento de Português da Universidade e ministrei cursos livres de língua portuguesa a adultos. Realizei um Mestrado em Didáctica do Português e das Línguas Clássicas e uma pós-graduação em Ensino Especial. Vivi entre 2017 e Janeiro de 2020 na cidade da Beira, Moçambique, onde coordenei o Centro Cultural Português, do Camões, dois Centros de Língua Portuguesa, nas Universidades da Beira e de Quelimane. Fui docente na Universidade Pedagógica da Beira, onde leccionava Didáctica do Português a futuros professores. Resido agora em Díli, onde trabalho como Perito de um Projecto de Cooperação e lecciono na UNTL. Ler é a minha vida e espero continuar a espalhar as chamas desta paixão entre os leitores amigos que por aqui passam.