O Pintassilgo é o muito aguardado regresso de Donna Tartt, livro que demorou quase onze anos a ser escrito, conseguindo aliás repetir a proeza de intervalar numa década a publicação de um romance, pois apesar de, em Portugal, os dois primeiros livros terem sido publicados quase de seguida, essas duas primeiras obras tiveram também um interregno de cerca de dez anos.

A História Secreta, o seu primeiro romance, obteve um êxito estrondos, e desvenda o secretismo de um crime, referido logo no prólogo, onde o narrador se confessa como adjuvante do mesmo. Richard Papen deixa a sua Califórnia natal para continuar os estudos na Universidade. Fascinado por um estranho grupo de cinco estudantes sofisticados e misteriosos, inicia um curso de grego antigo dirigido por Julian Morrow, integrando assim esse círculo fechado, que mais se assemelha a uma irmandade ou sociedade secreta, envolvendo-se num ambiente macabro onde se misturam a erudição, o amor da beleza e da violência.

O Pequeno Amigo, o seu segundo romance, ganhou o WHS Literary Award e foi nomeado para o Orange Prize for Fiction. Numa pequena cidade do Mississípi, Harriet cresce na sombra do seu irmão, que aparece logo nas primeiras páginas do romance, descrito como um corpo pendurado no ramo de uma árvore do jardim da sua própria casa, pois foi encontrado enforcado quando ela era ainda bebé. O assassino nunca foi identificado e a família nunca recuperou da tragédia, até que Harriet, com apenas doze anos, decide então resolver o assassinato do irmão, juntamente com o seu amigo Hely.

Neste último livro, a autora volta a surpreender-nos com outro romance denso, pesado (com cerca de 700 páginas, como os outros dois), que arrecadou o Prémio Pulitzer de Ficção 2014 e foi considerado pelo The New York Times como um dos melhores livros de 2013.

O Pintassilgo conta a história de Theo Decker, um adolescente de 13 anos, que vive em Nova Iorque com a mãe, com quem partilha uma relação muito próxima. Esta odisseia, comparada inclusivamente a uma história de Charles Dickens, começa literalmente com um Bum!!!, quando o jovem Theo, absorto e preocupado com o que será falado na reunião com o director da escola, vive quase como um sonho o momento em que ele e a mãe entram no Metropolitam Museum of Art, para se abrigarem de uma chuvada súbita. A certa altura, enquanto Theo continua a remoer a reunião, devido à sua amizade com uma companhia imprópria, Tom Cable, ao mesmo tempo que a sua atenção é retida por uma jovem que anda pelo museu com um idoso, a mãe afasta-se para outra sala para observar por uma última vez um quadro, ao que se sucede uma explosão. As passagens seguintes são absolutamente avassaladoras: na descrição de como Theo se liberta dos escombros, depara-se com o homem que acompanhava a jovem que o interpela e mantém uma conversa quase normal com ele, apesar do cenário apocalíptico que os envolve, e talvez por causa desse mesmo sentimento de ruína envolvente o idoso incentiva Theo a salvar dos escombros um quadro que, tal como o jovem, sobreviveu à destruição. Em seguida, é também entregue a Theo um anel que deverá servir como senha, enquanto lhe são proferidas as enigmáticas palavras: «Hobart e Blackwell. Toca à campainha verde». A forma como Theo sobrevive inexplicavelmente ao acidente não é mais desconcertante do que o percurso que ele faz até sair do museu, rodeado de ambulância, polícia e bombeiros, abandonando depois esse recinto, sempre sem ser visto, e apesar de transportar consigo um pequeno quadro na mão, enquanto procura chegar rapidamente a casa para se encontrar com a mãe.

Só no dia seguinte toma consciência, quando lhe batem à porta, que a mãe de facto morreu e que a sua vida mudou para sempre, pois a única hipótese que lhe resta é ficar com os avós, que vivem longe e que mal conhece, pois o pai, alcoólico e jogador compulsivo, acabou por abandonar a família, o que Theo recorda como a melhor coisa que lhes aconteceu pois a presença luminosa da mãe transformava-se na sua companhia. Naquela que é uma solução apenas temporária, mas que determina em muito a sua vida, Theo é acolhido pela família Barbour, que vivem numa imponente e luxuosa moradia em Park Avenue, e encontra também o caminho para a campainha verde, um antiquário onde conhece Hobart, um restaurador, e Pippa, a jovem que cativou o seu coração no museu e que ficou lesada na explosão. Contudo este interlúdio de sonho rapidamente termina quando o pai ressurge de forma tão súbita como desaparecera antes e logo se encarrega de limpar o conteúdo do apartamento onde Theo vivia com a mãe. Como que numa simetria perfeita, conhecemos ainda Xandra, o reverso das duas figuras femininas anteriormente descritas, uma espécie de “loura burra”, que vive uma vida de excesso, sendo daí a perfeita companhia do pai de Theo, pois “snifa” cocaína e toma comprimidos como se fossem rebuçados.

Já anunciada uma adaptação ao cinema e, pondo de parte a polémica gerada em torno do livro – a sua qualidade discutível, o seu aproveitamento de clichés, a aparente falta de estilo literário -, esta história envolve o leitor, mesmo que, por vezes, o fio condutor pareça perder-se, pois os vários episódios da vida de Theo são aparentemente desconexos. A única luz que guia Theo é a pequena e misteriosa pintura que dá nome ao livro, e que ele esconde de toda a gente, inclusive de si próprio. O Pintassilgo é a pequena ave pintada nessa tela minúscula, pintada em 1654 por Carel Fabritius, cujo autor morreu nesse mesmo ano, com a idade de 32 anos, numa explosão de um arsenal de pólvora que destruiu parte da cidade de Delft. A obsessão com o quadro, que Theo acha agora ser impossível voltar a devolver sem se arriscar a ser preso, quadro que a mãe lhe terá mostrado no museu, com uma pequena e singela ave presa por uma corrente a um poleiro, é também, possivelmente, a sua luz redentora pois, mesmo que a certa altura Theo nem sequer retire a pintura do embrulho em que a esconde e protege, ele continua a agarrar-se a esse quadro como uma tábua de salvação, como uma memória da mãe, como uma extensão do seu eu…

Em Las Vegas, Theo conhece o ucraniano Boris, amizade igualmente determinante na sua vida, com quem incorre em experiências de bebida, comprimidos e roubo. É esse mesmo Boris que, mais tarde, conduz Theo, agora adulto, a viver em Nova Iorque novamente, onde trabalha como antiquário, protegido e apadrinhado por Hobart, ao mundo do subcrime, embora se tenha já tornado claro que a sua vida, apesar de aparentemente perfeita, com casamento marcado (ainda que continue a alimentar um amor platónico por Pippa) esconde outros segredos, de desonestidade e ambição. Talvez seja mesmo o poder da arte que, em última instância, tenha o condão de salvar este jovem que se sente perdido desde a morte da mãe.

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Paulo Nóbrega Serra
Written by Paulo Nóbrega Serra
Obtive o grau de doutor em Literatura com a tese «O realismo mágico na obra de Lídia Jorge, João de Melo e Hélia Correia», em Junho de 2013. Mestre em Literatura Comparada e Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, autor da obra O Realismo Mágico na Literatura Portuguesa: O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge e O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo, fruto da minha tese de mestrado. Tenho ainda três pequenas biografias publicadas na colecção Chamo-me: Agostinho da Silva, Eugénio de Andrade e D. Dinis. Colaboro com o suplemento Cultura.Sul e tenho publicados alguns artigos na área dos estudos literários. Trabalhei como professor do ensino público cerca de 10 anos, ministrei formação e sou actualmente Leitor do Instituto Camões em Gaborone na Universidade do Botsuana e na SADC, sendo o responsável pelo Departamento de Português da Universidade e onde ministro cursos livres de língua portuguesa a adultos. Realizei entretanto um Mestrado em Didáctica do Português e das Línguas Clássicas, frequento uma formação online de promoção da leitura e preparo-me para uma de revisão. Ler é a minha vida e espero continuar a espalhar as chamas desta paixão entre os leitores amigos que por aqui passam.