É o mais recente livro do autor. Foi originalmente lançado em 2008 e publicado pela Relógio d’Água em Janeiro de 2017, no mesmo mês em que este grande pensador polaco faleceu. Num registo claramente contemporâneo, o autor traça um mapa actual de como encontrar a felicidade partindo dos antigos (e regressando aos antigos), passando pelos filósofos alemãos do século XX, nomeadamente Nietzsche, e muitos outros, no nosso «mundo líquido-moderno», numa sociedade capitalista, egotista e individualista. Começando de rompante com a pergunta «O que há de errado com a felicidade?», de modo a desconcertar o leitor, este pode ainda sentir-se perdido ao longo da obra, dividida em três capítulos, com introdução e posfácio, enquanto Zygmunt Bauman disserta entre o consumismo e a publicidade, os dilemas do homem moderno em como gastar o dinheiro, quais os bens necessários à felicidade, a normalidade e a anormalidade, a aleatoriedade da Natureza (como se verificou na catástrofe do Grande Terramoto de 1755), a ordem construída pelos humanos com recurso à ciência e à tecnologia (e que descambou na catástrofe da Grande Guerra e da Segunda Guerra Mundial), os reality show e a sua regra de exclusão semanal como uma lei que faz parte da natureza das coisas, uma juventude apostada em ser catapultada para a fama por algum golpe do destino, a existência de um destino, a profusão de blogues da rede global (em 2006 eram 50 milhões) onde há quem descreve ao pormenor o seu pequeno-almoço diariamente e incorre em actos confessionais despudorados, o livre-arbítrio, a «destruição criativa» que importámos da arte e praticamos diariamente, a construção de uma identidade que raie a Perfeição Absoluta, a pertença a comunidades exclusivas, o discurso de Sarkozy que incita o povo francês a trabalhar mais e ganhar mais, o reconhecimento social vs. fracasso e humilhação, as utopias e as distopias (do agora novamente tão falado 1984 a A possibilidade de uma ilha de Michel Houellebecq), a bulimia e a anorexia de que sofremos entre os produtos com que somos bombardeados e as dietas que se impõem como revolucionárias apenas para na semana seguinte surgir outra nova e melhorada, e das pessoas que arriscaram a sua vida para ajudar as vítimas do nazismo não porque esperavam uma recompensa mas porque não conseguiriam viver com a sua consciência. No fim, entre a lógica organizacional das novas empresas e o compromisso em que assenta o casamento, tudo se entrelaça para justificar o que o autor nos diz desde o princípio deste tratado sobre a busca da felicidade, ao mesmo tempo que nos alerta para os perigos com que somos bombardeados numa sociedade de excesso de informação e sem filtros: «Praticar a arte da vida, fazer da sua existência uma “obra de arte”, significa, no nosso mundo líquido-moderno, viver num estado de transformação permanente, autorredefinir-se perpetuamente» (p. 102).

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Paulo Nóbrega Serra
Written by Paulo Nóbrega Serra
Obtive o grau de doutor em Literatura com a tese «O realismo mágico na obra de Lídia Jorge, João de Melo e Hélia Correia», em Junho de 2013. Mestre em Literatura Comparada e Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, autor da obra O Realismo Mágico na Literatura Portuguesa: O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge e O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo, fruto da minha tese de mestrado. Tenho ainda três pequenas biografias publicadas na colecção Chamo-me: Agostinho da Silva, Eugénio de Andrade e D. Dinis. Colaboro com o suplemento Cultura.Sul e com o Jornal Postal do Algarve, e tenho publicados alguns artigos na área dos estudos literários. Trabalhei como professor do ensino público cerca de 10 anos, ministrei formação. Fui Docente do Instituto Camões em Gaborone na Universidade do Botsuana e na SADC, sendo o responsável pelo Departamento de Português da Universidade e ministrei cursos livres de língua portuguesa a adultos. Realizei entretanto um Mestrado em Didáctica do Português e das Línguas Clássicas, frequento uma formação online de promoção da leitura e preparo-me para uma de revisão. Ler é a minha vida e espero continuar a espalhar as chamas desta paixão entre os leitores amigos que por aqui passam. Resido actualmente na cidade da Beira, Moçambique.