Depois de descobrir Rachel Cusk através da sua trilogia, isto é, das obras mais recentes, fui procurar o que mais se encontrava publicado em Portugal e descobri uma obra que aliás já me era familiar, recorrendo, como muitas vezes recorro, ao que encontro nas bibliotecas públicas. Arlington Park, obra traduzida por Tânia Ganho e publicada pelas Edições Asa, é bastante diferente de livros como Kudos, mas é igualmente uma leitura essencial a não perder. Uma espécie de Donas de Casa Desperadas, Arlington Park é uma versão erudita da histeria que significa viver no microcosmos de um subúrbio. O livro está brilhantemente escrito, e a acção condensa-se no único dia da vida de cinco mulheres, sendo que cada capítulo se centra em cada uma das personagens, para depois as retomar e por fim as reunir num jantar que se pode tornar catastrófico. Todas estas mulheres têm em comum, mesmo que não encontrem afinidades genuínas entre elas, o facto de se sentirem perdidas no seu casamento, na sua nova vida de mãe doméstica, como se o desfecho de todo o casamento fosse tornar-se uma peça de teatro, ou antes, uma farsa: «Maisie ouviu os passos do marido nas escadas; sentiu-o a aproximar-se, como que saído do âmago de um qualquer fogo ou fornalha invisível, onde ele era recriado em prol dela, fabricado uma e outra vez a partir das suas ausências. Sentiu uma consciência quase que insuportável da realidade dele, da vida dele e da tarefa, da tarefa dela, de manter aquelas representações dele coesas e contínuas. Era amor, esse trabalho de decifrar, interpolar e testemunhar: ser testemunha de algo na sua totalidade, isso era amor.» (p. 196)
Perpassa na narrativa um forte sentido de identidade feminina, do que significa ser mulher e mãe, e chega a ser chocante a hostilidade que por vezes estas mulheres manifestam perante os seus maridos, que parecem ter-se tornado perfeitos estranhos. Juliet é professora num liceu e apenas consegue encontrar algum consolo nas tardes em que reúne jovens raparigas num clube literário; Amanda é uma dona de casa cujo perfeccionismo e obsessão pela limpeza pode esconder uma homicida latente; Solly está prestes a dar à luz o seu quarto filho, sem conseguir perceber como é que se deixou apanhar nessa armadilha novamente, até que decide alugar um quarto vago e encontrar consolo na misteriosa vida das estudantes solteiras que o ocuparão; Maisie tenta domesticar o seu espírito agora fora da azáfama londrina e cingido à pacatez do subúrbio; Christine continua igualmente a sentir a aura londrina como um nevoeiro que dissipava ou esbatia a nitidez da realidade, e procura nas outras mulheres algum tipo de aliança…
A escrita de Rachel Cusk é absolutamente deliciosa e original, impregnada de algum humor negro, pois todas estas mulheres estão também à beira de um ataque de nervos, todas elas “interessantes”, porque têm os seus próprios “ódios de estimação”, como reflecte Christine (p. 113). Até ao descrever a mais banal das situações, a autora consegue modelar a linguagem e dar-lhe novos sentidos, como quando descreve o cenário à entrada de um centro comercial, local que parece servir de refúgio a estas mulheres: «todas as camadas do edifício eram visíveis dali de baixo. Parecia uma ilustração das cavidades do coração: as pessoas eram levadas para cima pelas escadas rolantes e, no fim, voltavam a emergir, oxigenadas pelas compras.» (p. 90)

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Paulo Nóbrega Serra
Written by Paulo Nóbrega Serra
Obtive o grau de doutor em Literatura com a tese «O realismo mágico na obra de Lídia Jorge, João de Melo e Hélia Correia», em Junho de 2013. Mestre em Literatura Comparada e Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, autor da obra O Realismo Mágico na Literatura Portuguesa: O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge e O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo, fruto da minha tese de mestrado. Tenho ainda três pequenas biografias publicadas na colecção Chamo-me: Agostinho da Silva, Eugénio de Andrade e D. Dinis. Colaboro com o suplemento Cultura.Sul e com o Jornal Postal do Algarve, e tenho publicados alguns artigos na área dos estudos literários. Trabalhei como professor do ensino público cerca de 10 anos, ministrei formação. Fui Docente do Instituto Camões em Gaborone na Universidade do Botsuana e na SADC, sendo o responsável pelo Departamento de Português da Universidade e ministrei cursos livres de língua portuguesa a adultos. Realizei entretanto um Mestrado em Didáctica do Português e das Línguas Clássicas, frequento uma formação online de promoção da leitura e preparo-me para uma de revisão. Ler é a minha vida e espero continuar a espalhar as chamas desta paixão entre os leitores amigos que por aqui passam. Resido actualmente na cidade da Beira, Moçambique.