O Dia dos Prodígios foi o romance de estreia de Lídia Jorge, publicado em 1980, e nele perpassa um forte sentido de autobiografia, escrito com base na memória da terra de Boliqueime, onde nasceu, e em que reflecte o imaginário e o modo de vida de um ambiente rural. O registo linguístico remete para o regional e popular, com recurso a diversos termos algarvios, mas existe igualmente uma forte dimensão mítica, que se constrói a partir do realismo mágico. Logo quando publicado, este romance foi apontado como uma obra inaugural desse género de ficção, caracterizado pelo uso do maravilhoso, aproximando-se de escritores como Gabriel García Márquez ou William Faulkner (um dos seus escritores preferidos).

Mesmo que já se tenha escrito sobre esta obra antes e, ainda em 2010, se tenham realizado, na Câmara Municipal de Loulé, diversas iniciativas em comemoração do 30º. aniversário da obra, é impossível deixar de voltar a este livro com um sentimento de novidade, trabalhando-a como um cristal multifacetado, onde se descobrem sempre novas facetas consoante a perspectiva que se adopte. Foi também no ano de 2010 que se publicou uma edição comemorativa da obra, pela Dom Quixote, o que coincidiu ainda com a sua adaptação e para teatro por Cucha Carvalheiro, ex-directora do Teatro da Trindade, em Lisboa, estreando em 23 de Setembro de 2010, com um elenco onde constavam diversos actores como Maria Emília Correia, Cristina Cavalinhos, Diogo Morgado e Filomena Cautela. Esta peça foi inclusivamente trazida a Loulé em Março de 2011.

Na intriga existem diversos elementos que atestam a ocorrência do mágico: uma comunidade que acredita numa cobra que depois de morta ganha asas e voa; um rio que secou há cem anos sem razão aparente; crenças e superstições locais que se referenciam, «Só havia ali na curva do rio um moinho velho, onde, de noite, apareciam medos» (p.31); Pássaro Volante que julga que a sua mula se riu dele e lhe fugiu; as insolações lunares de Macário que o fazem dormir durante catorze dias do mês. Mas é em Branca que o mágico se concentra mais fortemente, à semelhança de outras personagens femininas com poderes sobrenaturais, como a Blimunda de Saramago. Branca, cujo nome próprio está imbuído de uma ideia de luminosidade que remete para o celestial, insinuando uma magia que provém dos céus, possui capacidades de adivinhação que lhe permitem atravessar as distâncias do tempo não-acontecido: «Assim Branca, com dezassete anos vira a Pássaro. De rosto tão quadrangular e olho tão assestado sobre a sua carnação mal coberta por um vestido de popelina, que fora forçada a dizer. (…) Vai ser aquele, porque tem cara de me querer bater toda a vida. Já então se supunha com um alcance que ia mais além do presente até agarrar o futuro, com uma vidência feita de sobressaltos e chamada por palavras.» (p. 66).

Branca vive retida em casa, controlada pelo marido através da bordadura de uma colcha branca, onde figura um dragão, tarefa que ele impôs como forma de controlar o seu tempo livre, enquanto ele, como o próprio nome de Pássaro Volante indica, anda por aí em liberdade, com as suas mulas, à semelhança de um cavaleiro andante que deixa a sua donzela na torre, guardada por um dragão: «Tinha dito uma vez em frente de pessoas de fora, que a bondade mandava que se fornecesse à mulher o entretém para os dedos, de outra. Oh, de outra forma. Branca Volante passaria as tardes com o espírito além das parreiras. E o que se passasse no espírito nunca se poderia medir nem calcular. O dragão, pelo contrário, era um indicativo precioso. Note-se. Não só do tempo que tinha ficado disponível, como ainda da justiça usada na distribuição das tarefas. Porque se alguma coisa faltasse fazer, e as escamas do dragão crescessem. Ah dedinhos. Branca estaria a esquecer-se dos seus deveres, e forçoso seria fazê-la lembrar. Cinco dedos estampados na pele. Não era para doer. Era mais a marca e a lembrança.» (p. 36).

No entanto, após um casamento submisso de dez anos, Branca passa a viajar em pensamento graças aos seus poderes mágicos, e pode inclusivamente perscrutar a distância física, através da visão e audição: «A mão sobre a orelha. Havia tempo que ouvia os sons à distância. (…) Consigo ouvir animais, pessoas, rumorejo de folhas. Chego a ouvir as ondas. Este tam tam que vem e vai.» (pp. 48-49). Branca passará até a dormir, estranhamente, com os olhos abertos: «Branca fechou os olhos porque acordou.» (p. 51). Esta personagem feminina, enquanto detentora de capacidades mágicas, pode inclusivamente ser considerada como a responsável pela aparição da tal cobra voadora. Ao bordar o dragão na colcha, empreita que dura há dez anos, produto das tardes e que se arrasta pelo chão da casa, Branca começa a recear a sua própria criação pois sente-a mover-se pela casa como um monstro, uma assombração. Como se todo o tempo e energia que a mulher consumiu na sua feitura lhe tivessem conferido algum poder vital: «Agora o dragão começa a ter uma forma de verdadeiro animal réptil voante. Porque o contorno da asa cinza vivo se abre em leque no meio do pano e o corpo do bicho de escamas miúdas. (…) Sendo potente e metalizado enrosca pelo tecido, e as patas abertas parecem agarrar seres vivos.» (p. 88).

É cuiroso atentar como o elemento do dragão invoca os contos de fada em que as jovens donzelas indefesas estavam presas numa torre e guardadas por um dragão, mas é também a própria Branca que cria a criatura que será também o seu carrasco… Essa colcha é, afinal, como uma criação artística com o poder de uma obra literária, investindo Branca de um poder que vai além das suas capacidades visionárias, imbuíndo-a de uma nova força. A colcha simboliza assim, enquanto artefacto ou objecto estético, artístico, criado pelas suas próprias mãos, um processo de recuperação de poder e de apropriação da palavra como forma de libertação. O leitor depara-se ainda com um crescendo da personagem que não só vai conseguir rebelar-se contra o marido, defendendo-se com um facalhão quando ele a ataca. Esta mulher vive ainda o presente concentrada nos seus pressentimentos de um futuro que ela pre-vê melhor: «em breve as camionetas vão começar a chegar abarrotadas de gente que há-de vir para me consultar. Sobre as suas vidas. Além de outras viaturas motorizadas, animais ferrados e gente de pé.» (p. 199). Essa previsão de Branca é, aliás, o único horizonte positivo que o romance deixa e permite antecipar o que está para lá do final do livro. Esta fé no porvir retrata ainda o sentir do povo português e retrata essa vivência particular que é uma espera sebastianista, pois apesar da Revolução do 25 de Abril continua-se a aguardar o cumprir de uma profecia que salve o país, simbolizada por essa cobra que depois de espezinhada levanta voo.

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Paulo Nóbrega Serra
Written by Paulo Nóbrega Serra
Obtive o grau de doutor em Literatura com a tese «O realismo mágico na obra de Lídia Jorge, João de Melo e Hélia Correia», em Junho de 2013. Mestre em Literatura Comparada e Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, autor da obra O Realismo Mágico na Literatura Portuguesa: O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge e O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo, fruto da minha tese de mestrado. Tenho ainda três pequenas biografias publicadas na colecção Chamo-me: Agostinho da Silva, Eugénio de Andrade e D. Dinis. Colaboro com o suplemento Cultura.Sul e tenho publicados alguns artigos na área dos estudos literários. Trabalhei como professor do ensino público cerca de 10 anos, ministrei formação e sou actualmente Leitor do Instituto Camões em Gaborone na Universidade do Botsuana e na SADC, sendo o responsável pelo Departamento de Português da Universidade e onde ministro cursos livres de língua portuguesa a adultos. Realizei entretanto um Mestrado em Didáctica do Português e das Línguas Clássicas, frequento uma formação online de promoção da leitura e preparo-me para uma de revisão. Ler é a minha vida e espero continuar a espalhar as chamas desta paixão entre os leitores amigos que por aqui passam.