A Filha do Papa é a obra mais recente e também o primeiro romance, do italiano Dario Fo. Dario Fo nasceu em 1926, na Lombardia. Foi escritor, diretor e ator. Em 1997 recebeu o Prémio Nobel de Literatura.

As suas obras destacam-se por representarem sátiras que atacam os poderes instituídos. O político, o capitalismo, a máfia e até mesmo o Vaticano. Talvez seja pertinente salvaguardar que o autor estava em plena adolescência quando deflagrou a Segunda Guerra Mundial. Tinha ingressado na Escola Brera de Belas-Artes quando se viu forçado a interromper os estudos, ao ser recrutado para o exército. Acabou depois por desertar e refugiou-se num sótão onde os seus pais escondiam judeus, ajudando-os a atravessar a fronteira para poderem chegar à Suíça. Terminada a guerra, Dario Fo retomou os estudos, voltando à Escola Brera, e matriculou-se no curso de Arquitetura do Instituto Politécnico de Milão. Mais tarde trabalhou como cenarista. Escreveu a primeira peça de teatro em 1944 e desde então não parou de escrever. Em 1951 conheceu Franca Rame, atriz descendente de uma longa linhagem de atores, com quem casou em 1954. Em 1959 fundou com a sua esposa uma companhia de teatro de nome Fo-Rame. Atualmente é um autor reconhecido internacionalmente, com cerca de setenta obras, muitas delas escritas em colaboração com a mulher.

A Filha do Papa foi publicado em Outubro do ano passado, pelas Publicações Dom Quixote e neste seu romance histórico, Dario Fo dá-nos a conhecer a sua versão de quem terá sido afinal Lucrécia Borgia. Como a própria Sinopse da obra refere, Lucrécia é sobejamente conhecida na História e na literatura, se bem que nem sempre pelas melhores razões: «Filha de um papa, três casamentos, um marido assassinado, um filho ilegítimo… tudo em apenas trinta e nove anos, em pleno Renascimento. (…) afastando-se das reconstituições escandalosas ou puramente históricas, revela-nos num romance magistral, o único escrito pelo autor, toda a humanidade de Lucrécia, libertando-a dos clichés de mulher dissoluta e incestuosa e inserindo-a no contexto histórico e na vida quotidiana da sua época. Assim, ante os nossos olhos desfila o fascínio das cortes renascentistas, com o papa Alexandre VI – o mais corrupto dos pontífices –, o diabólico irmão Cesare, os maridos de Lucrécia – perseguidos, mortos, humilhados – e os seus amantes, acima de todos Pietro Bembo, com o qual partilhava o amor pela arte e, em especial, pela poesia e pelo teatro. Todos peões dos impiedosos jogos de poder. Uma verdadeira academia do nepotismo e do obsceno, entre festas e orgias.».

Dario Fo tenta nesta obra não só retratar o lado mais humano de Lucrécia como joga ainda com o facto de produzir um romance quase cénico, muito próximo de uma peça dramática, naquela que é também uma narrativa histórica, apoiada em diversa bibliografia (apresentada no final do livro). Procurando ater-se a um espírito documentalista e de honestidade, Dario Fo começa logo por apresentar no preâmbulo da sua obra de que o tema que nos traz não é propriamente novo:

«Sobre a vida, sobre os triunfos e sobre as infâmias mais ou menos documentadas dos Borgia foram escritas e levadas à cena óperas e peças teatrais, realizados filmes de notável qualidade com atores de fama e, ultimamente, até mesmo duas séries televisivas de extraordinário sucesso./Qual é o motivo de tanto interesse sobre o comportamento destes personagens? Antes do mais, a despudorada falta de qualidade moral que lhes é atribuída em todos os momentos da vida. Uma existência libertina desde a sexualidade até ao comportamento social e político.» (pág. 33).

Encontraremos, aliás, diversas citações de obras de autores como Savonarola e Alexandre Dumas a corroborar o retrato que nos é apresentado da filha do papa.

É bem patente, desde as primeiras linhas, a crítica ácida e o tom cáustico de que a escrita do autor se reveste. A Filha do Papa inclui ainda diversas ilustrações realizadas pelo próprio autor que procuram ilustrar a história com retratos não só de Lucrécia – sendo que a capa do livro é uma dessas ilustrações do próprio autor – como também das outras figuras que gravitam em seu redor ou, melhor dizendo, nas mãos das quais Lucrécia foi muitas vezes um fantoche ou um peão. Dario Fo consegue assim, quase cinco séculos depois, recuperar a figura de Lucrécia, apresentando-a como vítima e cordeiro sacrificial, representando a jovem Bórgia, quase sempre vista como incestuosa e mestre na arte da sedução e do veneno, como uma figura inocente no meio dos esquemas levados a cabo pelo pai e pelos irmãos, bastante angelical aliás dado o clima de traição e ambição que reinava na época. Como o autor indica a dada altura no seu Preâmbulo: «De todas as vezes, a vítima a imolar desde a infância não é outra senão Lucrécia. É ela que é lançada em todas as ocasiões, tanto pelo pai como pelo irmão, no vórtice dos interesses financeiros e políticos, sem a mínima piedade. O que pensava daquilo a doce menina não os preocupava nada. Aliás era uma mulher, um juízo que valia tanto para um pai futuro papa como para um irmão próximo cardeal. Portanto, em certos momentos, Lucrécia é uma coisa com rotundos seios e esplêndidos glúteos. Ah, já nos esquecíamos, também os seus olhos são cheios de encanto.» (pág. 34).

O humor, assim como a ironia, reveste-se também de particular importância, no retrato apresentado da época e das personagens que gravitam em redor de Lucrécia e dos Bórgia. Veja-se, por exemplo, a seguinte passagem a propósito do papa Inocêncio, citando Savonarola: «em cuja existência a única coisa inocente foi o nome. (…) ele era chamado «pai do povo» porque graças às suas atividades amatórias tinha aumentado o número dos seus súbditos em oito filhos machos e oito fêmeas – numa vida que decorreu em grande voluptuosidade – naturalmente com amantes diversas.» (pág. 36). Ou noutra passagem digna de nota quando se refere a um massacre ocorrido em julho de 1492: «a cada morte de um papa, em Roma, ocorria uma grande quantidade de homicídios porque, por tradição secular, no final de cada conclave em que é eleito o novo pontífice se concede a graça a quem tiver cometido um crime nos dias de interregno./Portanto, todos aqueles que sonham com um ato de vendetta aproveitam as tradicionais férias para tirar a desforra, matar hoje para se tornar livre amanhã, e tudo graças a uma segura indulgência plenária. Que belos tempos!» (pág. 38).

Para quem gosta de ler o livro e depois ver na tela ou no pequeno ecrã uma adaptação mais fiel, pode recorrer à série Os Bórgia que é certamente a mais mediática, em termos de projeção internacional, exibida entre nós no canal AXN. Realizada por Neil Jordan (Jogo de Lágrimas), conta com Jeremy Irons a representar o papel do papa Alexandre VI (outrora o cardeal Rodrigo Borgia) e a jovem atriz inglesa Holliday Granger que desempenha com inocência e candura o papel de Lucrécia Bórgia.

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Paulo Nóbrega Serra
Written by Paulo Nóbrega Serra
Obtive o grau de doutor em Literatura com a tese «O realismo mágico na obra de Lídia Jorge, João de Melo e Hélia Correia», em Junho de 2013. Mestre em Literatura Comparada e Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, autor da obra O Realismo Mágico na Literatura Portuguesa: O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge e O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo, fruto da minha tese de mestrado. Tenho ainda três pequenas biografias publicadas na colecção Chamo-me: Agostinho da Silva, Eugénio de Andrade e D. Dinis. Colaboro com o suplemento Cultura.Sul e tenho publicados alguns artigos na área dos estudos literários. Trabalhei como professor do ensino público cerca de 10 anos, ministrei formação e sou actualmente Leitor do Instituto Camões em Gaborone na Universidade do Botsuana e na SADC, sendo o responsável pelo Departamento de Português da Universidade e onde ministro cursos livres de língua portuguesa a adultos. Realizei entretanto um Mestrado em Didáctica do Português e das Línguas Clássicas, frequento uma formação online de promoção da leitura e preparo-me para uma de revisão. Ler é a minha vida e espero continuar a espalhar as chamas desta paixão entre os leitores amigos que por aqui passam.